blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Arte popular brasileira: olhares contemporâneos

“Os exus são assim neutralizados, tirados de circulação, aprisionados na escultura. Esse fato é reconhecido, embora nebulosamente, por Tabibuia e explicaria talvez sua recusa em esculpir ou aprisionar Deus e os santos.” Paulo Pardal, colecionador, sobre Chico Tabibuia (1989).

“Ao pintar do mesmo jeito que ele, de certa forma entrei na sua mente agitada, o que me abriu um espaço psicológico esquisito e interessante. Apesar de sua falta de técnica, Ranchinho tinha uma extrema habilidade para ordenar suas cenas numa visão de tudo ao mesmo tempo, onde a individualidade dos objetos e seres se funde numa totalidade que sua pintura frenética era capaz de configurar quase num golpe só, e com detalhes surpreendentemente agudos em meio às pinceladas aparentemente toscas.” Rodrigo Andrade, artista plástico, sobre Ranchinho (2012).

Arte popular brasileira: olhares contemporâneos

MERGULHANDO NO NAUFRÁGIO

Adrienne Rich, 1973

 

Depois de ter lido o livro dos mitos,

de ter carregado a câmera

e de ter checado o fio da faca,

eu me visto

com a armadura de borracha negra,

as nadadeiras absurdas,

a severa e estranha máscara.

Preciso fazê-lo

não como Cousteau com o seu

time em prontidão

a bordo da ensolarada fragata,

mas aqui sozinha.

 

Há uma escada.

A escada sempre está lá

pendurada impunemente

perto da borda do barco.

Sabemos para que serve,

nós, que a usamos.

Ou senão

seria um cabo náutico,

um equipamento marítimo qualquer.

 

Eu desço.

Degrau por degrau

o oxigênio me envolve

a luz azul

límpidos átomos

do nosso ar humano.

Eu desço.

Minhas nadadeiras

me aleijam,

rastejo como um inseto escada abaixo

e não há ninguém

para mostrar onde o oceano

começa.

 

Primeiro o ar é azul e então

mais azul e então verde e então

preto estou apagando e ainda assim

a minha máscara é poderosa

ela bombeia energia para o meu sangue

o mar é uma outra história

o mar não é uma questão de força

preciso aprender sozinha

a virar meu corpo suavemente

no elemento profundo.

 

E agora: é fácil me esquecer

daquilo para o que eu vim

em meio a tantos que aqui sempre viveram

ondulando as hélices dentadas

em meio aos corais

e ademais

aqui se respira diferente.

 

Eu vim para explorar o naufrágio.

As palavras são metas.

As palavras são mapas.

Eu vim para ver o estrago que foi feito

e os tesouros que restaram.

Acaricio com o facho de luz da lanterna

lentamente o flanco

de algo mais permanente

do que algas e peixes

 

aquilo para o que eu vim:

o naufrágio e não a notícia sobre o naufrágio

a coisa em si e não o mito

o rosto afogado sempre olhando

para o sol

a prova do dano

corroída de sal e voltada para essa beleza inconsútil

as carcaças do desastre

dobrando sua afirmação

em meio aos espantosos exploradores.

 

Esse é o lugar.

E eu estou aqui, a sereia cujo cabelo escuro

flui negro, homem marinho do corpo encouraçado.

Circulamos em silêncio

pelo naufrágio

mergulhamos para dentro do casco.

Eu sou ela: eu sou ele

 

cujo rosto afogado dorme de olhos abertos

cujo peito ainda mostra a tensão

cuja carga de prata, cobre, carmim jaz

no interior obscuro de barris

meio escorados e deixados para apodrecer

nós somos os instrumentos semidestruídos

que certa vez mantiveram um curso

a tora carcomida pela água

a bússola escangalhada

 

Nós somos, eu sou, você é

por covardia ou coragem

aquele que encontrar nosso rumo

de volta para esta cena

portando uma faca, uma câmera

um livro de mitos

em que nossos nomes não aparecem.

 

And yet my mask is powerful (Basel Abbas & Ruanne Abou-Rahme, 2016)

Fluxos: Caps & Goms

Mais do que registrar tendências estilísticas, certas obras de arte reverberam ecos dos acontecimentos. Artistas capazes de sentir e transmitir tremores, abalos sísmicos que atravessam a memória coletiva, são “como sismógrafos”, diria o filósofo Georges Didi-Huberman. Os trabalhos de Vinicius Caps e Thiago Goms expressam as tensões da “cidade mundo” que desmentem a “ideologia do sistema da globalização”, nas palavras do antropólogo Marc Augé.

Paulistanos da zona sul, eles conquistaram espaço no mundo da arte global depois de anos em contato com a “essência das ruas”, como diz Caps. Esse movimento é um dos muitos “fluxos” aos quais se refere o título da exposição no Espaço Cultural Alma da Rua, palavra que ressoa tanto a história recente da arte (no nome do grupo contestador integrado por Joseph Beuys, Yoko Ono e Nam June Paik, entre outros) quanto a linguagem das festas dos jovens. Movimentações entre ocidente e oriente, local e global, centro e periferia, são fluxos típicos dos processos de descolonização entre os quais se insere a arte urbana, um fluxo que deixa marcas nos muros, escala prédios e atravessa pontes: “o mundo é diferente da ponte pra cá”, explica Caps citando um verso dos Racionais MC’s.

Fluxo implica a reciprocidade decorrente de uma “natureza acontecimental”, na curiosa formulação do filósofo Slavoj Žižek. Assim, os artistas que trazem a “essência das ruas” para o mundo da arte também levam para as ruas os procedimentos artísticos dos quais se apropriam. Caps cita Goya entre suas referências e é possível enxergar algo das gravuras e pinturas mais sinistras do pintor espanhol nas figuras zooantropomórficas de Goms. Sejam inscrições com spray ou pinturas com tinta látex, “nas ruas os traços se repetem”, revela Caps, e a arte proporciona uma abertura para experimentações.

As linguagens da pintura, performance, vídeo, deriva, apropriação e arte conceitual expandem o campo de ação dos artistas e potencializam as conexões entre as diversas esferas e fluxos. Em Subhumanidade, Caps usa uma máscara de carnaval do Recife e caminha por Paraisópolis recolhendo objetos. O aspecto zooantropomórfico do personagem lembra as pinturas de Goms e o uso da máscara ao caminhar sem rumo pelo ambiente degradado remete ao trabalho de Basel Abbas e Ruanne Abou-Rahme, que promoveram derivas por ruínas de cidades palestinas em Israel com uma máscara neolítica reproduzida por impressão 3D em And yet my mask is powerful (2016). Nos trabalhos de Caps e dos artistas palestinos, a máscara media o contato com o espaço e, como um mergulho no naufrágio, torna visível uma realidade latente, estranha e anacrônica que sobrevive ao silêncio de esquecimento a que havia sido abandonada.

Didi-Huberman afirma que a imagem resulta do gesto, uma extensão do corpo, como ao se estender o braço para fazer uma fotografia. As imagens e inscrições produzidas por pichadores e grafiteiros ocupam paisagens da “cidade mundo” e resistem contra a imposição da imagem de uma cidade ideal. Nos trabalhos de Caps e Goms reverbera a força dos gestos das escaladas noturnas, o braço erguido contra o muro, o desafio às autoridades, conflitos, parcerias, “atropelos” e linhas de fuga. O fluxo que os leva ao mundo da arte não provém da domesticação, mas da potência desses gestos.

Oitava elegia

para Rudolf Kasner

 

Com todos os olhos a criatura vê

o Aberto. Só nossos olhos parecem

invertidos e instalados ao redor de si

como armadilhas espalhadas pelas suas vias livres.

Do que é lá fora, sabemos apenas pelo semblante

do animal; pois desde cedo forçamos

a criança a olhar para trás, para que veja

formas e não o Aberto, que

na face animal é tão profundo. Sem morte.

Nós somente a vemos; o bicho solto

tem sua queda sempre atrás de si

e Deus adiante, quando anda, então anda

na eternidade, como correm as fontes.

Nós nunca temos, nem mesmo por um dia,

o puro espaço diante de nós, onde flores

se erguem sem cessar. É sempre o mundo

e nunca lugar nenhum sem não: o puro,

indiviso, que se respira e

sempre sabe e nunca se anseia. Uma criança

ali se perde em silêncio e tem de ser

arrebatada. Ou alguém morre e é isso.

Pois perto da morte já não se vê a morte

e se olha para fora, talvez com grandes olhos de animal.

Amantes, não fosse o outro, que

distorce a vista, ficam perto daquilo que os atordoa…

Como por descuido para eles se entreabre

por trás do outro… Mas nenhum deles

escapa e ali torna a ser mundo.

Sempre voltados para a criação, vemos

nela apenas os vislumbres do que é livre,

para nós velado. Ou que um animal

olha ao redor através de nós.

A isto se chama destino: estar em face de

e nada além disso e sempre em face.

 

Se houvesse consciência como a nossa

no animal a salvo, que nos repele

para outro lado –, ele mudaria nosso rumo

com seu passo. De fato o seu ser é para ele

infinito, inapreensível e sem olhar

para o seu estado, puro, como o seu panorama.

E onde vemos futuro, ele vê tudo

e a si mesmo no todo e salvo para sempre.

 

Ainda assim há no animal alerta e cálido

o cuidado e o pesar de uma tristeza imensa.

Pois nele reside o que por vezes

nos abala –, a lembrança,

como se aquilo aonde se vai,

tivesse estado mais perto, mais leal e sua ligação

fosse infinitamente doce. Aqui é tudo hiato,

e ali era hálito. Depois da primeira pátria

a segunda lhe é incerta e atribulada.

Ó felicidade da pequena criatura,

que permanece sempre no ventre que a pariu;

ó feliz da mosca, que ali volteia,

até mesmo no acasalamento: pois tudo é ventre.

E veja a confiança parcial do pássaro,

que algo sabe sobre ambos de sua origem,

como se ele fosse uma alma de etrusco,

de um morto, que recebeu espaço,

mas com a quieta efígie a lhe cobrir.

E como se atormenta aquele que precisa voar

e provém de um ventre. Como se apavorado

por si mesmo, risca o ar, como uma fenda

atravessa uma taça. Assim rasga um rastro

o morcego na porcelana da tarde.

 

E nós: espectadores, sempre, por toda a parte,

voltados para isso tudo e nunca para fora!

Preenche-nos. Ordenamos. Desmorona.

Tornamos a ordená-lo e nós mesmos desmoronamos.

 

Quem foi que nos desviou tanto que,

o que quer que façamos, ficamos como quem

estivesse de partida? Como quem

à última colina, para a qual o vale inteiro

uma outra vez se lhe descerra, volta-se, detém-se, demora –,

assim vivemos e nos despedimos.

 

Duineser Elegien (Rainer Maria Rilke, 1923)

De volta

 

Chego à cidade sem lua

sem a tua silhueta

era a pura viagem

agora é a cidade

nua e crua

 

A verdade escura

que se insinua

na tua mensagem

 

Uma palavra cura

outra perfura

 

Fico à procura

da tua verdadeira imagem