blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

MERGULHANDO NO NAUFRÁGIO

Adrienne Rich, 1973

 

Depois de ter lido o livro dos mitos,

de ter carregado a câmera

e de ter checado o fio da faca,

eu me visto

com a armadura de borracha negra,

as nadadeiras absurdas,

a severa e estranha máscara.

Preciso fazê-lo

não como Cousteau com o seu

time em prontidão

a bordo da ensolarada fragata,

mas aqui sozinha.

 

Há uma escada.

A escada sempre está lá

pendurada impunemente

perto da borda do barco.

Sabemos para que serve,

nós, que a usamos.

Ou senão

seria um cabo náutico,

um equipamento marítimo qualquer.

 

Eu desço.

Degrau por degrau

o oxigênio me envolve

a luz azul

límpidos átomos

do nosso ar humano.

Eu desço.

Minhas nadadeiras

me aleijam,

rastejo como um inseto escada abaixo

e não há ninguém

para mostrar onde o oceano

começa.

 

Primeiro o ar é azul e então

mais azul e então verde e então

preto estou apagando e ainda assim

a minha máscara é poderosa

ela bombeia energia para o meu sangue

o mar é uma outra história

o mar não é uma questão de força

preciso aprender sozinha

a virar meu corpo suavemente

no elemento profundo.

 

E agora: é fácil me esquecer

daquilo para o que eu vim

em meio a tantos que aqui sempre viveram

ondulando as hélices dentadas

em meio aos corais

e ademais

aqui se respira diferente.

 

Eu vim para explorar o naufrágio.

As palavras são metas.

As palavras são mapas.

Eu vim para ver o estrago que foi feito

e os tesouros que restaram.

Acaricio com o facho de luz da lanterna

lentamente o flanco

de algo mais permanente

do que algas e peixes

 

aquilo para o que eu vim:

o naufrágio e não a notícia sobre o naufrágio

a coisa em si e não o mito

o rosto afogado sempre olhando

para o sol

a prova do dano

corroída de sal e voltada para essa beleza inconsútil

as carcaças do desastre

dobrando sua afirmação

em meio aos espantosos exploradores.

 

Esse é o lugar.

E eu estou aqui, a sereia cujo cabelo escuro

flui negro, homem marinho do corpo encouraçado.

Circulamos em silêncio

pelo naufrágio

mergulhamos para dentro do casco.

Eu sou ela: eu sou ele

 

cujo rosto afogado dorme de olhos abertos

cujo peito ainda mostra a tensão

cuja carga de prata, cobre, carmim jaz

no interior obscuro de barris

meio escorados e deixados para apodrecer

nós somos os instrumentos semidestruídos

que certa vez mantiveram um curso

a tora carcomida pela água

a bússola escangalhada

 

Nós somos, eu sou, você é

por covardia ou coragem

aquele que encontrar nosso rumo

de volta para esta cena

portando uma faca, uma câmera

um livro de mitos

em que nossos nomes não aparecem.

 

And yet my mask is powerful (Basel Abbas & Ruanne Abou-Rahme, 2016)

Oitava elegia

para Rudolf Kasner

 

Com todos os olhos a criatura vê

o Aberto. Só nossos olhos parecem

invertidos e instalados ao redor de si

como armadilhas espalhadas pelas suas vias livres.

Do que é lá fora, sabemos apenas pelo semblante

do animal; pois desde cedo forçamos

a criança a olhar para trás, para que veja

formas e não o Aberto, que

na face animal é tão profundo. Sem morte.

Nós somente a vemos; o bicho solto

tem sua queda sempre atrás de si

e Deus adiante, quando anda, então anda

na eternidade, como correm as fontes.

Nós nunca temos, nem mesmo por um dia,

o puro espaço diante de nós, onde flores

se erguem sem cessar. É sempre o mundo

e nunca lugar nenhum sem não: o puro,

indiviso, que se respira e

sempre sabe e nunca se anseia. Uma criança

ali se perde em silêncio e tem de ser

arrebatada. Ou alguém morre e é isso.

Pois perto da morte já não se vê a morte

e se olha para fora, talvez com grandes olhos de animal.

Amantes, não fosse o outro, que

distorce a vista, ficam perto daquilo que os atordoa…

Como por descuido para eles se entreabre

por trás do outro… Mas nenhum deles

escapa e ali torna a ser mundo.

Sempre voltados para a criação, vemos

nela apenas os vislumbres do que é livre,

para nós velado. Ou que um animal

olha ao redor através de nós.

A isto se chama destino: estar em face de

e nada além disso e sempre em face.

 

Se houvesse consciência como a nossa

no animal a salvo, que nos repele

para outro lado –, ele mudaria nosso rumo

com seu passo. De fato o seu ser é para ele

infinito, inapreensível e sem olhar

para o seu estado, puro, como o seu panorama.

E onde vemos futuro, ele vê tudo

e a si mesmo no todo e salvo para sempre.

 

Ainda assim há no animal alerta e cálido

o cuidado e o pesar de uma tristeza imensa.

Pois nele reside o que por vezes

nos abala –, a lembrança,

como se aquilo aonde se vai,

tivesse estado mais perto, mais leal e sua ligação

fosse infinitamente doce. Aqui é tudo hiato,

e ali era hálito. Depois da primeira pátria

a segunda lhe é incerta e atribulada.

Ó felicidade da pequena criatura,

que permanece sempre no ventre que a pariu;

ó feliz da mosca, que ali volteia,

até mesmo no acasalamento: pois tudo é ventre.

E veja a confiança parcial do pássaro,

que algo sabe sobre ambos de sua origem,

como se ele fosse uma alma de etrusco,

de um morto, que recebeu espaço,

mas com a quieta efígie a lhe cobrir.

E como se atormenta aquele que precisa voar

e provém de um ventre. Como se apavorado

por si mesmo, risca o ar, como uma fenda

atravessa uma taça. Assim rasga um rastro

o morcego na porcelana da tarde.

 

E nós: espectadores, sempre, por toda a parte,

voltados para isso tudo e nunca para fora!

Preenche-nos. Ordenamos. Desmorona.

Tornamos a ordená-lo e nós mesmos desmoronamos.

 

Quem foi que nos desviou tanto que,

o que quer que façamos, ficamos como quem

estivesse de partida? Como quem

à última colina, para a qual o vale inteiro

uma outra vez se lhe descerra, volta-se, detém-se, demora –,

assim vivemos e nos despedimos.

 

Duineser Elegien (Rainer Maria Rilke, 1923)

De volta

 

Chego à cidade sem lua

sem a tua silhueta

era a pura viagem

agora é a cidade

nua e crua

 

A verdade escura

que se insinua

na tua mensagem

 

Uma palavra cura

outra perfura

 

Fico à procura

da tua verdadeira imagem

 

Coríntios

 

Címbalo sou, que soa
e não mais

Nada adianta
o dom, ainda que fale
suas línguas

Não, nada

Some o som que sou
em silêncio, cessam
ciência e profecia

Olha-se no espelho
a criança, fica a sua face
para sempre, não porém
o que lhe era próprio:

o maior valor

Ainda que eu tenha
o dom e também fale
tua língua, some o som
do címbalo que sou

“brônzeas batidas”
no ritmo da noite

 

Mandylion

 

Toda vida muda

sob o sol

 

Tua lua perfura a sombra

futura

 

pálida réstia

 

Ainda há mundo oculto

em meio ao manto

solto no vento

 

Um rosto e outro

no escuro