§

De volta

 

Chego à cidade sem lua

sem a tua silhueta

era a pura viagem

agora é a cidade

nua e crua

 

A verdade escura

que se insinua

na tua mensagem

 

Uma palavra cura

outra perfura

 

Fico à procura

da tua verdadeira imagem

 

§

Coríntios

 

Címbalo sou, que soa
e não mais

Nada adianta
o dom, ainda que fale
suas línguas

Não, nada

Some o som que sou
em silêncio, cessam
ciência e profecia

Olha-se no espelho
a criança, fica a sua face
para sempre, não porém
o que lhe era próprio:

o maior valor

Ainda que eu tenha
o dom e também fale
tua língua, some o som
do címbalo que sou

“brônzeas batidas”
no ritmo da noite

 

§

Mandylion

 

Toda vida muda

sob o sol

 

Tua lua perfura a sombra

futura

 

pálida réstia

 

Ainda há mundo oculto

em meio ao manto

solto no vento

 

Um rosto e outro

no escuro

 

§

Quarentena

 

Consumir carne

A partir de sábado

Não produz risco

 

A partir de um dia

Determinado

 

Nada será perdido

Tudo está traçado

A partir desse dia

 

Não será sacrifício

Nada que faça sentido

 

No dia determinado

 

Feriado cívico

Antigo

Sagrado

 

Lembrado para sempre

Quem se foi cedo

Sem ter sido

Claro

 

Sem ter sido puro

Esquecido

Tudo

 

Sob o sol

Parado

 

§

Saturno

 

Passa pelo espaço

o astro

 

A voz no vácuo

 

diz a palavra

 

– aquela mesma

palavra

clara –

 

um dia dita,

há muito