§

Sonho

 

Não vou te contar

meu  sonho sobre  a noite

de gelo.

 

Não por segredo,

pudor, apego.

 

Preso à teia o morcego

no ar noturno.

O touro louco

abate-o em pleno vôo.

 

Cão morto.

Filhotes órfãos uivam ao luar

de gelo.

Era noite fresca.

 

Nada disso conta, nada faz diferença.

 

§

Leitor de Eliot

 

No cruzamento

do caminho percorrido

com o que não foi

tomado, o passo

que poderia ter sido

ou não ter sido

dado para dentro

de uma sombra,

para fora pela

soleira do acaso.

 

§

Ícone

 

Madeira, espírito da matéria

Natureza dentro

De casa

 

Árvore interior

Fruto e cruz

Adão tocado por Jesus

 

Mulher com o menino

Dá luz à luz

De olhos abertos

No corpo da cor, pairam

 

Sobre toda poeira

 

§

Falência múltipla

 

Pátina recobre

decrépitas paredes

repletas de enfermos

no corredor

cinzento

 

Feito números, acumulam-se

nomes de homens feitos

em bronze, óxido e sais

 

De fato, sinais

em papéis timbrados

nada mais

 

Salário, cabedais

tudo se desfaz

exceto o som

do coração

 

Musgo carcome estátuas

no carso cavernoso das ruas

de reentrâncias, respingos que ecoam

nos poços de poças

nas sombras

 

Vozes voam nos vãos das pedras

vêm e vão em ondas

de ar no espaço

 

§

Sitz ich allein

 

Sento-me só

O que pode ser melhor?

Meu vinho

Bebo sozinho

Não me aborreça

Eu penso com a minha própria cabeça

 

Johann Wolfgang von GOETHE

West-östlicher Diwan (1827)