blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Quarentena

 

Consumir carne

A partir de sábado

Não produz risco

 

A partir de um dia

Determinado

 

Nada será perdido

Tudo está traçado

A partir desse dia

 

Não será sacrifício

Nada que faça sentido

 

No dia determinado

 

Feriado cívico

Antigo

Sagrado

 

Lembrado para sempre

Quem se foi cedo

Sem ter sido

Claro

 

Sem ter sido puro

Esquecido

Tudo

 

Sob o sol

Parado

 

Saturno

 

Passa pelo espaço

o astro

 

A voz no vácuo

 

diz a palavra

 

– aquela mesma

palavra

clara –

 

um dia dita,

há muito

 

Sonho

 

Não vou te contar

meu  sonho sobre  a noite

de gelo.

 

Não por segredo,

pudor, apego.

 

Preso à teia o morcego

no ar noturno.

O touro louco

abate-o em pleno vôo.

 

Cão morto.

Filhotes órfãos uivam ao luar

de gelo.

Era noite fresca.

 

Nada disso conta, nada faz diferença.

 

Leitor de Eliot

 

No cruzamento

do caminho percorrido

com o que não foi

tomado, o passo

que poderia ter sido

ou não ter sido

dado para dentro

de uma sombra,

para fora pela

soleira do acaso.

 

Ícone

 

Madeira, espírito da matéria

Natureza dentro

De casa

 

Árvore interior

Fruto e cruz

Adão tocado por Jesus

 

Mulher com o menino

Dá luz à luz

De olhos abertos

No corpo da cor, pairam

 

Sobre toda poeira