Colapso da razão
Algo destoava no amplo salão do Paço das Artes. Entre os numerosos artistas, a exposição de Rafael Campos Rocha era discreta e silenciosa. Esta observação não é uma crítica aos outros trabalhos. Muito pelo contrário.
Havia um distanciamento incomum, na contramão da experiência estética. Os “filmes” passavam em pequenos monitores à altura dos olhos do espectador. Nada como o que se vê nos modernos monitores de tela plana, que pretendem absorver todo o campo visual, privatizando a cinematografia.
A série de “vídeo-retratos” de Robert Wilson (Sesc, 2008) remove os atores da linha do tempo e cria um espaço cênico lírico e onírico que o espectador sente poder compartilhar. Esse instante sublime nega e contesta a narrativa original dos filmes, de onde supostamente eles vieram. Os filmes de Rafael Campos Rocha chegam à mesma contestação, mas por meios que são antitéticos aos de Robert Wilson. E pelo menos em arte, ao que tudo indica, os fins não justificam os meios.
Os monitores interpelam o espectador como a um interlocutor, alguém com quem se pretende estabelecer um diálogo, não como alguém que se convida a ingressar no outro mundo por meio das imagens, a trocar olhares com as entidades do além, sentindo sua aura, travando com elas alguma espécie de comunicação não-verbal. O comportamento das fãs diante da imagem em tamanho real de Brad Pitt lembrava a eficácia simbólica dos ícones.
Rafael Campos Rocha se recusa a criar obras de arte que permitam, ainda que à revelia do artista, qualquer tipo de identificação, qualquer interpretação que remotamente sugira esse deslumbramento.
Daí a luta com o mundo das imagens. Na série de “desenhos”, paisagens compostas com palavras manuscritas, elas são abolidas. Esses trabalhos são o resultado de uma tomada de consciência sobre o modo de operação da história da arte. Não afirmam a impossilidade da pintura, afirmam a impossibilidade da pintura ingênua. Afirmam que não é possível pintar sem pensar.
Do “genius loci” antigo ao “locus amoenus” neoclássico, até os modernos conceitos de “ser bruto” e “percepção primordial”, que já serviram para caracterizar a experiência direta do artista com a natureza, inclusive a célebre declaração de Jackson Pollock, “eu sou a natureza” (1942), todos esses significados produzidos pela história da arte e da filosofia passaram a embotar a experiência estética, uma vez que a própria arte explicitou a consciência de sua “metáfora interna” (como diz Arthur C. Danto) e do seu “enquadramento” ou “moldura” (como diz Hans Belting), isto é, do contexto lógico, histórico e social de sua pretensa autonomia.
Os “desenhos” de Rafael Campos Rocha não são “arte conceitual” como em Joseph Kosuth, por exemplo (“Uma e três cadeiras”, 1965). Ali se tratava de interrogar o ser da imagem, da linguagem e das coisas. Aqui se trata de explicitar conceitos puros como condições de possibilidade de qualquer experiência, no caso, de qualquer desenho. Esses desenhos fazem uma espécie de “crítica da razão”. Eles afirmam: não existe experiência senão por meio de conceitos.
Quer dizer que aquela definição iluminista de experiência estética como “intuição do universal sem conceito” está sendo questionada. Artistas e críticos, e sobretudo artistas críticos como este, têm a tarefa de examinar as condições em que esta experiência ainda é possível. Não há um belo natural sem os conceitos de beleza e natureza, que não correspondem a uma experiência do real, mas a significados produzidos artificialmente e legados pela história da arte. Esse questionamento talvez seja uma tomada de posição mais radical do que a da arte conceitual, que por sinal já foi absorvida com toda a naturalidade pelo mundo da arte.
Os “fanzines” são vinhetas em que aquelas entidades fantásticas às quais a arte dita profunda promete nos apresentar são caricaturadas e ironizadas. Esses traços improváveis provêm da consciência da impossobilidade de se dar forma a esses seres, sobre os quais pensamos conceitualmente, mas que nunca vimos, com os quais não convivemos, ou seja, que não conhecemos. Como Deus, por exemplo.
Em lugar de imprimi-los em grandes cartazes, “fanzines” e “desenhos” foram discretamente expostos em caixas de vidro. O modo de apresentação faz uma dupla ironia. Primeiramente porque imita a apresentação de desenhos ou gravuras, formas de gênero baixo na tradição artística, valorizadas pelo mercado de arte moderna. Assim, as caixas de vidro zombam da elegância de uma arte menor, que não tem aura, no sentido de singularidade. Por outro lado, os trabalhos também parecem presos a uma espécie de insetário. Como se tivessem sido catalogados por pesquisadores, naturalistas, exploradores estrangeiros.
Paira a sombra do século 18, que atribui à razão a capacidade de levar o homem à liberdade política e acredita que a “arte”, noção herdada do Renascimento, pertence a um campo diferente da vida comum, o campo da experiência estética. Os quadrinhos que circulam pela internet lembram as gravuras de Goya, que passavam de mão em mão fazendo a crítica da cultura na Espanha, um país afogado no obscurantismo da Inquisição em pleno auge do Século das Luzes (“Los caprichos”, 1799), que provou do vínculo entre despotismo e barbárie tanto sob a Coroa quanto sob Napoleão.
Rafael Campos Rocha tem com essa sombra uma relação repleta de contradições e contraposições. Seu trabalho é uma espécie de “dialética do esclarecimento”. Ele descreve o olhar iluminista dirigido ao século 21 e informado pela experiência histórica. E o que ele vê não é animador, a exemplo do que viram os autores daquele famoso livro. Suas crônicas confirmam a impressão de que se caminha a passos largos para longe de algo como uma “tomada de consciência”.
Quando se fala em “fim” da arte ou da história da arte, não se trata apenas de uma questão conceitual. Cada traço de Rafael Campos Rocha, por mais cômico que pareça, provém da consciência do colapso da experiência estética. Quando ele diz que “a arte é um produto da razão”, também quer dizer que os artistas não estão isentos dos monstros produzidos pelo “sono da razão”.
Veja aqui imagens dos vídeos de Robert Wilson e ali, o mais importante trabalho de Joseph Kosuth. E, por fim, aí estão as imagens da exposição no Paço das Artes.