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	<title>blog do Bento</title>
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	<description>Textos de José Bento Ferreira</description>
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		<title>A melhor obra de arte de 2012</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Dec 2012 14:52:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Exposições]]></category>

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		<description><![CDATA[Inabsência, de Arthur Lescher &#160; Aprendi com Carlos Fajardo a desconfiar da expressão “site specific”, um tipo de arte desenvolvido para certos lugares sem os quais o trabalho não existe ou deixa de fazer sentido. “A história do site specific é uma história curta, não sobrevive aos próprios trabalhos”, afirmou o artista e professor, na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a title="https://twitter.com/_Bento_/status/285789722289250305/photo/1" href="https://twitter.com/_Bento_/status/285789722289250305/photo/1" target="_blank"><em>Inabsência</em>, de Arthur Lescher</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Aprendi com Carlos Fajardo a desconfiar da expressão “site specific”, um tipo de arte desenvolvido para certos lugares sem os quais o trabalho não existe ou deixa de fazer sentido. “A história do site specific é uma história curta, não sobrevive aos próprios<br />
trabalhos”, afirmou o artista e professor, na entrevista publicada <a title="http://blogdobento.net/?p=213" href="http://blogdobento.net/?p=213" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p><em>Inabsência</em>, de Arthur Lescher, pode ser vista como algo mais do que um trabalho que acaba quando sai do lugar. Ao retomar o projeto inacabado de Ramos de Azevedo para o Liceu de Artes e Ofícios, onde hoje está a Pinacoteca do Estado, Lescher escolheu a cúpula e produziu uma imagem invertida dela no espaço sobre o qual ela deveria estar, que tem sido chamado de “octógono” e abriga trabalhos de arte contemporânea.</p>
<p>Não é um trabalho sobre o octógono, mas sobre a cúpula. Como indica o título, sobre a falta de uma cúpula. Ao ser removido, o trabalho de Arthur Lescher permanecerá in absentia, como dizem os juristas sobre o réu que falta ao próprio julgamento, tanto quanto a cúpula que o artista revelou.</p>
<p>O título do trabalho é apresentado como um neologismo, mas não consta do meu Houaiss. A bela palavra &#8220;inabsência&#8221; faz parte do trabalho, acentua seu caráter reflexivo. Assim como as cadeiras de Kosuth são &#8220;uma e três&#8221; (a coisa, a imagem e o conceito), <em>Inabsência</em> apresenta um modelo de cúpula projetado a partir de uma cúpula não realizada que faz pensar sobre a forma arquitetônica da cúpula em geral, a sensação de quem a vê ou está sob ela e o seu sentido na história da arte como um todo.</p>
<p>Caminhando sob o modelo invertido de cúpula criado por Lescher, ao redor do pontilhão, a luz que entra pela clarabóia (onde haveria um espaço fechado) lembra o ósculo do Panteão de Roma, a estrutura clássica que fixou a forma dos templos redondos, que era a das primeiras grandes igrejas cristãs (Santo Sepulcro em Jerusalém e Santa Sofia em Istambul).</p>
<p>Por oposição ao espaço aberto das arenas, associados a sentimentos expansivos e catárticos, a cúpula do Panteão, iluminada por luz natural, inspira reverência e convida à introspecção. Assim como os desfiles do Coliseu, que apresentavam homens e feras de diversas regiões do Império, o Panteão foi feito para todas as religiões.</p>
<p>Por diversas razões, a forma da cúpula foi abandonada, até que, no século 15, Filippo Brunelleschi a retomasse para a reforma da Catedral de Florença.</p>
<p>Brunelleschi foi protagonista de uma dessas &#8220;ressurreições&#8221; da história da arte de que fala André Malraux. Seu Domo celebra a harmonia entre natureza (paisagem), cidade (homem) e espírito (religião) que caracteriza o Renascimento e possibilita a idéia de obra de arte que ainda temos hoje. Por enquanto. Ou até a próxima &#8220;ressurreição&#8221;!</p>
<p>A simples presença física de uma cúpula pode ser perfeitamente banal, sem significado, como em tantas construções do século 20, comuns no centro de São Paulo. É por causa da ausência que a estrutura criada por Lescher remete-se à severidade dos antigos e ao humanismo renascentista.</p>
<p>Assim como o arquiteto Filippo, artista frustrado, retomou técnicas antigas para construir a cúpula sobre Santa Maria del Fiore, o artista brasileiro pesquisou o projeto original do prédio. Desta vez, porém, a obra de arte não é uma construção, mas uma reflexão.</p>
<p><a title="http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/10916-a-cupula-da-pinacoteca" href="http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/10916-a-cupula-da-pinacoteca" target="_blank">Aqui</a>, uma reprodução do projeto de Ramos de Azevedo para o prédio da Pinacoteca com uma cúpula imponente e mais fotos do trabalho de Arthur Lescher.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Cada ressurreição seleciona aquilo que recorda&#8230; Acidentes causam prejuízos e o Tempo transforma, mas nós é que escolhemos”. André Malraux, <em>As Vozes do Silêncio</em> (1953)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a title="http://blogdobento.net/?p=382" href="http://blogdobento.net/?p=382" target="_blank">A melhor obra de arte de 2010</a></p>
<p><a title="http://blogdobento.net/?p=573" href="http://blogdobento.net/?p=573" target="_blank">A melhor obra de arte de 2011</a></p>
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		<title>Pintura brasileira séc. XXI</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Mar 2012 19:21:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Leia aqui um texto de Fernanda Lopes sobre o livro Pintura brasileira séc. XXI. &#160;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://blogdobento.net/wp-content/uploads/2012/03/pinturabrasileira.png"><img class="alignnone size-full wp-image-601" title="pinturabrasileira" src="http://blogdobento.net/wp-content/uploads/2012/03/pinturabrasileira.png" alt="" width="598" height="403" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leia <a title="http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/03/03/resenha-de-pintura-brasileira-sec-xxi-434192.asp" href="http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/03/03/resenha-de-pintura-brasileira-sec-xxi-434192.asp" target="_blank">aqui</a> um texto de Fernanda Lopes sobre o livro <em>Pintura brasileira séc. XXI</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Portinari vs. Mira Schendel</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Feb 2012 13:44:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Exposições]]></category>
		<category><![CDATA[Imagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Estão entre os maiores nomes da arte brasileira do século vinte, mas por razões bem diferentes. Portinari tentou usar a pintura moderna para construir a linguagem de uma identidade nacional. Conciliar modernismo e nacionalismo não é tão fácil como parecia no tempo do Abapuru. Volpi e Guignard, posteriores ao primeiro modernismo e contemporâneos de Portinari, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estão entre os maiores nomes da arte brasileira do século vinte, mas por razões bem diferentes.</p>
<p>Portinari tentou usar a pintura moderna para construir a linguagem de uma identidade nacional. Conciliar modernismo e nacionalismo não é tão fácil como parecia no tempo do <em>Abapuru</em>. Volpi e Guignard, posteriores ao primeiro modernismo e contemporâneos de Portinari, com certeza fizeram uma pintura moderna brasileira, mas não foram nacionalistas, estavam mais preocupados com a pintura do que com a história.</p>
<p>Para Portinari, a pintura não é o bastante. É preciso conferir uma grandeza épica à miséria brasileira. Essa teatralização torna-o um pintor mais próximo de Pedro Américo e da pintura acadêmica do século 19 do que dos delírios dos primeiros modernistas.</p>
<p>Nos painéis <em>Guerra e Paz</em> doados para a ONU em 1957, a pretensão de universalidade não fez de Portinari um pintor mais moderno. Mirando-se ao mesmo tempo no <em>Juízo Final</em> de Michelangelo e na <em>Guernica </em>de Picasso, Portinari compôs corpos sem vigor, maquiou o sentimento trágico e a intensidade dramática dos seus assuntos com arranjos de cor e pinceladas.</p>
<p>Na penumbra do Salão de Atos de Tiradentes, o imponente prédio desenhado por Oscar Niemeyer no Memorial da América Latina, onde está exposto temporariamente o díptico de 14 metros de altura, eu ouvi alguém apontar semelhanças entre os dois painéis, como por exemplo a presença de certas figuras com mãos estendidas. A causa da semelhança seria a admirável sensibilidade social do pintor, capaz de denunciar também as agruras dos tempos de paz.</p>
<p>Aquilo me intrigou. Embora alguma semelhança fosse de fato perceptível, eu não consegui encontrar na <em>Paz</em> esses supostos elementos de denúncia social. É bastante natural e um tanto curioso como somos capazes de elaborar explicações fantasiosas para observações genuínas. Infelizmente, porém, elas costumam ser formadas a partir dos nossos preconceitos e de idéias feitas.</p>
<p>É claro que os dois painéis de <em>Guerra</em> <em>e</em> <em>Paz</em> são pinturas parecidas, mas não pelo que Portinati teria feito em “paz”, mas pelo que deixou de fazer na “guerra”, o que explica as limitações das duas partes desta obra ambiciosa.</p>
<p>Talvez estejamos muito distantes do universo moral que atormentava a mente de Michelangelo (não tenho tanta certeza), mas certamente falta ao trabalho de Portinari a tensão de forças que ainda assombra os visitantes da Capela Sistina.</p>
<p>Pablo Picasso, por sua vez, praticamente inventou uma linguagem pictórica ao mesmo tempo moderna e comprometida com o momento histórico, no caso, a “causa” republicana. Como diz Simon Schama em <em>O poder da arte</em>, ao ser convidado a contribuir com uma pintura para o pavilhão republicano espanhol da Exposição Internacional de 1937 em Paris, ele não tinha “a menor idéia do que haveria de fazer”. Depois de um verdadeiro mergulho nos símbolos da Espanha que sempre o acompanharam, assim como um acerto de contas com a sombra de Goya, surgiu uma das obras mais poderosas da história da arte.</p>
<p>Os esboços de <em>Guerra e Paz</em> expostos no Memorial da América Latina não mostram nem mesmo uma pequena fração da intensidade com a qual Picasso dedicou-se a uma tarefa que desde o início parecia clara para ele. Para que a sua pintura realmente importasse naquele momento ela teria que se transformar por completo. Os traços sinuosos de seus retratos cubistas e o alegre colorido de suas pinturas deram lugar a um espaço interior em preto e branco invadido por imagens dos horrores da guerra.</p>
<p><a href="http://blogdobento.net/wp-content/uploads/2012/02/DSC05477.jpg"><img class="alignnone size-large wp-image-586" title="DSC05477" src="http://blogdobento.net/wp-content/uploads/2012/02/DSC05477-768x1024.jpg" alt="" width="538" height="717" /></a></p>
<p>A pouca distância do Memorial da América Latina, no coração do “centro velho” de São Paulo, o centro cultural da Caixa Econômica Federal, na praça da Sé, foram expostos alguns trabalhos da artista suíça Mira Schendel, que viveu e trabalhou no Brasil. Eu tive a oportunidade de escrever sobre um pouco de sua vida e obra em um <a title="Fazer e pensar, León Ferrari e Mira Schendel" href="http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/21/textos/533/" target="_blank">artigo publicado pela revista “Brasileiros” há alguns anos</a>.</p>
<p>Não há sentido nenhum em confrontar Mira Schendel e Portinari, a não ser a mera coincidência das duas exposições. Mas, para quem não acredita em coincidências, não deixa de ser esclarecedor como a fragilidade e a delicadeza da arte apátrida de Mira Schendel mede forças com as pinturas de 14 metros que pertencem à ONU – e vence.</p>
<p>Na Caixa, há na realidade um pequeno fragmento da obra de Mira Schendel, o que prejudica bastante a exposição. Não há exemplares de <em>Droguinhas</em> e <em>Sarrafos</em>, cuja importância tentei explicitar no meu texto. Não seria tão difícil, sobretudo para uma instituição tão poderosa, obter por empréstimo alguns trabalhos dessas séries e tornar assim a exposição mais significativa.</p>
<p>Mesmo assim, o pouco que se pode ver por ali é capaz de iluminar os espectadores. Uma série de frágeis papéis japoneses, alguns até rasgados, rabiscados com palavras aparentemente sem sentido, assim como pinturas com aquarela e spray, ou experiências tipográficas, subvertendo a formatação mecânica das máquinas de escrever, que passam a funcionar de acordo com os espaços inventados da pintura.</p>
<p>Um dos desenhos sobre papel arroz justapõe as palavras italianas “su” e “giú”, que significam “acima” e “abaixo”. As palavras se revelam: “quatro caminhos, o caminho da cruz”. Perseguida pelas leis anti-semitas do Estado fascista dirigido por Mussolini, Mira Schendel foi expulsa da Universidade Católica de Milão, onde estudava filosofia.</p>
<p>No frágil papel, manipulando a disposição espacial das letras manuscritas, toda uma experiência histórica e teológica se reflete. Como no tempo da grande arte. Esse pequeno pedaço de papel rabiscado e rasgado é muito mais representativo dos altos desígnios que inspiram a Organização das Nações Unidas do que os heróicos e irrefletidos painéis de Portinari.</p>
<p><a href="http://blogdobento.net/wp-content/uploads/2012/02/DSC05712.jpg"><img class="alignnone size-large wp-image-588" title="DSC05712" src="http://blogdobento.net/wp-content/uploads/2012/02/DSC05712-768x1024.jpg" alt="" width="538" height="717" /></a></p>
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