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Carolina Paz: a artista e sua obra

Se a categoria “obra de arte” deixou de ser lugar-comum e tornou-se ponto de discussão, o que dizer da palavra “obra” como conjunto de trabalhos realizados por uma determinada pessoa? O que unifica a trajetória de um artista? Qual é a relação entre a unidade da obra e a identidade pessoal dos indivíduos, sejam eles artistas ou não? Essas questões já foram respondidas de diversas maneiras, mas se complicam quando consideradas a partir de uma perspectiva global, para além da história da arte e suas referências filosóficas.

Nesse campo ampliado, as imagens produzidas pelos artistas aparecem como resultados de relações humanas e não como criações pura e simplesmente individuais, uma vez que a própria consciência de cada indivíduo pode não ser senão a “somatória de suas relações com outras pessoas,” como escreveu o antropólogo Alfred Gell ao tratar precisamente dessas questões. Haveria segundo o autor um “isomorfismo estrutural” entre a obra de um artista como um todo e a constelação de relações interpessoais que aponta unicamente para a sua pessoa. Assim como a “mônada” de Leibniz, cada indivíduo é único, mas “possui relações que expressam todos os outros.”

Não seria mera coincidência que a idéia do pensador metafísico tenha servido tanto ao filósofo Walter Benjamin, para ilustrar uma concepção de história, quanto ao antropólogo Maurice Godelier, para caracterizar as relações entre pessoas e coisas a partir do conceito de dom ou dádiva: “a parte é o Todo, o Todo está inteiro em cada uma de suas partes.” Em circunstâncias diversas, os dois autores empregaram a metafísica para reforçar posicionamentos materialistas a respeito da filosofia da história e da teoria social, respectivamente.

Essas idéias tornam mais compreensível aquilo que nós sabemos acerca das obras de arte, isto é, que as possibilidades expressivas são determinadas pelo contexto ao qual cada uma delas pertence e que esse contexto envolve tanto a subjetividade do artista quanto as relações intersubjetivas existentes ao redor dele. Por isso, uma obra de arte importante pode ser um objeto idêntico a uma coisa comum. A força do trabalho de arte depende de sua capacidade de exprimir o feixe de relações que envolve a mente e o mundo de um artista.

Compreende-se também a dificuldade de avaliar as obras de arte, uma vez que as circunstâncias se alteram e somente a continuidade da expressividade artística em diversas perspectivas assegura sua consistência, ainda que nunca de modo definitivo. Circunstâncias diferentes podem aumentar ou diminuir o interesse por determinadas obras ou momentos históricos.

A artista Carolina Paz afirma que seu trabalho passou por transformações significativas depois das residências artísticas realizadas ao longo de 2014 nos Estados Unidos e na Europa. Uma nova etapa pode potencializar os momentos anteriores. Nesses trabalhos mais recentes, ela retoma a prática da pintura sem abandonar o caráter reflexivo e conceitual das esculturas.

O “isomorfismo” entre trabalhos de arte e relações humanas ocorre antes e depois do período apontado como um momento decisivo. O período anterior contém uma série de trabalhos inspirados no costume intercultural de tomar café. Seria possível argumentar que Dois, Dobra, Contato e Todo o tempo nada têm a ver com o costume e exploram apenas as formas dos objetos, as tensões criadas pelos pesos, o equilíbrio instável do líquido, a cor e o modo como se formam manchas sobre o papel.

A interpretação que prima pela visualidade não está errada, mas é incompleta. Os trabalhos de Carolina Paz não são como os ready-mades de Marcel Duchamp, que, segundo o filósofo e crítico Arthur C. Danto, foram “selecionados precisamente pela falta de interesse estético.” As formas, tensões e justaposições das xícaras, líquidos e fios criam relações delicadas que removem provisoriamente os objetos do contexto prático. O caráter provisório dessa operação, porém, não é acidental.

O contexto original de onde vieram os objetos usados nos trabalhos é tão significativo quanto a beleza visual obtida com eles. O convite ao café é um código universalmente conhecido. Nos trabalhos de Carolina Paz, o café funciona como as imagens dos meios de comunicação de massa na arte pop, em contraponto às dimensões insondáveis exploradas pelos pintores expressionistas abstratos. Com marcas de xícaras e manchas de café sobre papel, a artista produz trabalhos que podem ser vistos como arte gráfica abstrata, mas cujas formas, em lugar de negar o convívio e a comunicabilidade, resultam deles.

O período de 2014 e 2015, por sua vez, caracteriza-se pelo uso de imagens preexistentes e pela retomada da pintura. A reunião desses dois aspectos não é fácil, uma vez que a cultura da arte moderna atribui ao trabalho do pintor a nobre qualidade da criação individual. Mas assim como havia demonstrado a possibilidade de criar formas livres a partir do convívio e da comunicabilidade, nesse novo movimento a artista redireciona a pintura para um universo intersubjetivo.

Intersubjetividade não é o contrário de subjetividade. A artista afirma que seleciona imagens a partir de diversas fontes para “criar seus próprios signos.” As relações entre as imagens produzem associações surrealistas, mas em lugar da vida onírica a sucessão remete a certas formas de sociabilidade. Plantas e animais, pintados sobre papel ou sobre objetos de madeira, aludem a símbolos mágicos, totêmicos e destacam-se do fundo pintado com o dourado dos ícones. Em certos trabalhos, as imagens se organizam parataticamente, como se compusessem uma linguagem de hieróglifos.

As imagens sobre madeira exercem a antiga função de proteger os recipientes que contêm objetos sagrados ou preciosos. Retratos de costas ressaltam o caráter íntimo daquilo que a imagem foi feita para conter. Por outro lado, quando as imagens se voltam para nós a partir do fundo decorativo, estão imersas em redes de intertextualidade, como as pinturas feitas a partir de ilustrações dos livros de Pierre Bourdieu. A artista trata das relações entre intimidade e loquacidade, entre a consciência individual e os contatos com os outros.

Aplica-se no caso de Carolina Paz a idéia de Alfred Gell de que a obra de um artista é um “objeto distribuído” estruturalmente semelhante à consciência interna do realizador que, por sua vez, configura-se a partir de circunstâncias reais (históricas, sociais etc). Em ambicioso estudo, o antropólogo associa às obras de arte a fala de um informante dakota, citada pelo sociólogo Émile Durkheim:

Tudo o que se move, detém-se aqui ou ali, num momento ou noutro. O pássaro que voa se detém num lugar para fazer o ninho, num outro para descansar de seu vôo. O homem que caminha, detém-se quando lhe agrada. Acontece o mesmo com a divindade. O Sol, tão brilhante e magnífico, é um lugar onde ela se deteve. As árvores e os animais são outros. O índio pensa nesses lugares e envia a eles suas preces, para que estas atinjam o local onde o deus estacionou e para que obtenham assistência e bênção.

O antropólogo Lévi-Strauss se admira com a semelhança entre esta descrição animista e a idéia de “duração” do filósofo Henri Bergson. Alfred Gell, por sua vez, comenta a “doutrina do presente vivo” do filósofo Edmund Husserl. A consciência do tempo enquanto “fluxo de consciência” não teria a forma de uma coisa, mas de movimento, duração. Cada obra de arte seria um ponto de parada capaz de exprimir esse fluxo devido ao rastro que remete aos momentos anteriores e ao direcionamento que aponta para o que está por vir.

Cada imagem escolhida e produzida por Carolina Paz é um desses pontos de parada, “um local onde o deus estacionou” em meio ao fluxo da consciência. Imagens são cristalizações, intervalos de descontinuidade. Nelas se torna visível uma determinada conjunção de fatores que ocorre num momento único, e que podemos chamar de “mônada” ou “constelação.” Nesta conjunção estão implicados tanto os trabalhos anteriores da artista quanto os próximos, tanto o seu estado de espírito quanto o espírito de época que ela é capaz de captar, tanto uma sensibilidade profunda quanto a abertura para o diálogo.

Esses fatores são acidentais na vida dos artistas. Podemos considerar a possibilidade de um bom artista indiferente aos sentimentos humanos ou ao que pensam as outras pessoas. Mas isso não impede que a qualidade de sua obra resida na capacidade de cada uma das partes (as obras) exprimir o todo e na capacidade da obra como um todo de exprimir o contexto em meio ao qual ela foi produzida, e isto ao longo do tempo.

No caso de Carolina Paz, sensibilidade e diálogo permitem captar e exprimir algo de significativo a respeito do conceito de obra de arte e da relação entre a obra e a consciência. A diversidade do conjunto de trabalhos compõe um só “objeto distribuído” (a obra, o trabalho) por mais heterogêneas que sejam as suas partes. Analogamente, por mais diversas que sejam as formas de sociabilidade em que a pessoa se envolve, trata-se de um indivíduo único, incomparável (diria Nietzsche), ainda que sua própria individualidade seja um resultado dessas relações.

 

Referências bibliográficas

Alfred Gell, Art and agency, Clarendon Press, 1998.

Arthur C. Danto, Philosophizing art, University of California Press, 2001.

Émile Durkheim, As formas elementares da vida religiosa, Martins Fontes, 2000.

Gottfried Wilhelm Leibniz, Monadologia, Rusconi, 1997.

Maurice Godelier, O enigma do dom, Civilização Brasileira, 2001.