blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Oitava elegia

para Rudolf Kasner

 

Com todos os olhos a criatura vê

o Aberto. Só nossos olhos parecem

invertidos e instalados ao redor de si

como armadilhas espalhadas pelas suas vias livres.

Do que é lá fora, sabemos apenas pelo semblante

do animal; pois desde cedo forçamos

a criança a olhar para trás, para que veja

formas e não o Aberto, que

na face animal é tão profundo. Sem morte.

Nós somente a vemos; o bicho solto

tem sua queda sempre atrás de si

e Deus adiante, quando anda, então anda

na eternidade, como correm as fontes.

Nós nunca temos, nem mesmo por um dia,

o puro espaço diante de nós, onde flores

se erguem sem cessar. É sempre o mundo

e nunca lugar nenhum sem não: o puro,

indiviso, que se respira e

sempre sabe e nunca se anseia. Uma criança

ali se perde em silêncio e tem de ser

arrebatada. Ou alguém morre e é isso.

Pois perto da morte já não se vê a morte

e se olha para fora, talvez com grandes olhos de animal.

Amantes, não fosse o outro, que

distorce a vista, ficam perto daquilo que os atordoa…

Como por descuido para eles se entreabre

por trás do outro… Mas nenhum deles

escapa e ali torna a ser mundo.

Sempre voltados para a criação, vemos

nela apenas os vislumbres do que é livre,

para nós velado. Ou que um animal

olha ao redor através de nós.

A isto se chama destino: estar em face de

e nada além disso e sempre em face.

 

Se houvesse consciência como a nossa

no animal a salvo, que nos repele

para outro lado –, ele mudaria nosso rumo

com seu passo. De fato o seu ser é para ele

infinito, inapreensível e sem olhar

para o seu estado, puro, como o seu panorama.

E onde vemos futuro, ele vê tudo

e a si mesmo no todo e salvo para sempre.

 

Ainda assim há no animal alerta e cálido

o cuidado e o pesar de uma tristeza imensa.

Pois nele reside o que por vezes

nos abala –, a lembrança,

como se aquilo aonde se vai,

tivesse estado mais perto, mais leal e sua ligação

fosse infinitamente doce. Aqui é tudo hiato,

e ali era hálito. Depois da primeira pátria

a segunda lhe é incerta e atribulada.

Ó felicidade da pequena criatura,

que permanece sempre no ventre que a pariu;

ó feliz da mosca, que ali volteia,

até mesmo no acasalamento: pois tudo é ventre.

E veja a confiança parcial do pássaro,

que algo sabe sobre ambos de sua origem,

como se ele fosse uma alma de etrusco,

de um morto, que recebeu espaço,

mas com a quieta efígie a lhe cobrir.

E como se atormenta aquele que precisa voar

e provém de um ventre. Como se apavorado

por si mesmo, risca o ar, como uma fenda

atravessa uma taça. Assim rasga um rastro

o morcego na porcelana da tarde.

 

E nós: espectadores, sempre, por toda a parte,

voltados para isso tudo e nunca para fora!

Preenche-nos. Ordenamos. Desmorona.

Tornamos a ordená-lo e nós mesmos desmoronamos.

 

Quem foi que nos desviou tanto que,

o que quer que façamos, ficamos como quem

estivesse de partida? Como quem

à última colina, para a qual o vale inteiro

uma outra vez se lhe descerra, volta-se, detém-se, demora –,

assim vivemos e nos despedimos.

 

Duineser Elegien (Rainer Maria Rilke, 1923)

Poemas -
- October 28, 2017

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