blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Fluxos: Caps & Goms

Mais do que registrar tendências estilísticas, certas obras de arte reverberam ecos dos acontecimentos. Artistas capazes de sentir e transmitir tremores, abalos sísmicos que atravessam a memória coletiva, são “como sismógrafos”, diria o filósofo Georges Didi-Huberman. Os trabalhos de Vinicius Caps e Thiago Goms expressam as tensões da “cidade mundo” que desmentem a “ideologia do sistema da globalização”, nas palavras do antropólogo Marc Augé.

Paulistanos da zona sul, eles conquistaram espaço no mundo da arte global depois de anos em contato com a “essência das ruas”, como diz Caps. Esse movimento é um dos muitos “fluxos” aos quais se refere o título da exposição no Espaço Cultural Alma da Rua, palavra que ressoa tanto a história recente da arte (no nome do grupo contestador integrado por Joseph Beuys, Yoko Ono e Nam June Paik, entre outros) quanto a linguagem das festas dos jovens. Movimentações entre ocidente e oriente, local e global, centro e periferia, são fluxos típicos dos processos de descolonização entre os quais se insere a arte urbana, um fluxo que deixa marcas nos muros, escala prédios e atravessa pontes: “o mundo é diferente da ponte pra cá”, explica Caps citando um verso dos Racionais MC’s.

Fluxo implica a reciprocidade decorrente de uma “natureza acontecimental”, na curiosa formulação do filósofo Slavoj Žižek. Assim, os artistas que trazem a “essência das ruas” para o mundo da arte também levam para as ruas os procedimentos artísticos dos quais se apropriam. Caps cita Goya entre suas referências e é possível enxergar algo das gravuras e pinturas mais sinistras do pintor espanhol nas figuras zooantropomórficas de Goms. Sejam inscrições com spray ou pinturas com tinta látex, “nas ruas os traços se repetem”, revela Caps, e a arte proporciona uma abertura para experimentações.

As linguagens da pintura, performance, vídeo, deriva, apropriação e arte conceitual expandem o campo de ação dos artistas e potencializam as conexões entre as diversas esferas e fluxos. Em Subhumanidade, Caps usa uma máscara de carnaval do Recife e caminha por Paraisópolis recolhendo objetos. O aspecto zooantropomórfico do personagem lembra as pinturas de Goms e o uso da máscara ao caminhar sem rumo pelo ambiente degradado remete ao trabalho de Basel Abbas e Ruanne Abou-Rahme, que promoveram derivas por ruínas de cidades palestinas em Israel com uma máscara neolítica reproduzida por impressão 3D em And yet my mask is powerful (2016). Nos trabalhos de Caps e dos artistas palestinos, a máscara media o contato com o espaço e, como um mergulho no naufrágio, torna visível uma realidade latente, estranha e anacrônica que sobrevive ao silêncio de esquecimento a que havia sido abandonada.

Didi-Huberman afirma que a imagem resulta do gesto, uma extensão do corpo, como ao se estender o braço para fazer uma fotografia. As imagens e inscrições produzidas por pichadores e grafiteiros ocupam paisagens da “cidade mundo” e resistem contra a imposição da imagem de uma cidade ideal. Nos trabalhos de Caps e Goms reverbera a força dos gestos das escaladas noturnas, o braço erguido contra o muro, o desafio às autoridades, conflitos, parcerias, “atropelos” e linhas de fuga. O fluxo que os leva ao mundo da arte não provém da domesticação, mas da potência desses gestos.

Exposições, Textos -
- November 19, 2017

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