blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Ernst Hans Gombrich: História da Arte

A cópia romana do grande ídolo de Palas Atena que Fídias havia realizado para o seu santuário no Partenon dificilmente causará forte impressão. Devemos recorrer a antigas descrições e tentar imaginar como realmente seria: uma gigantesca imagem de madeira, com uns 11 metros de altura, tão alta quanto uma árvore, toda coberta de materiais preciosos – a armadura e as vestes de ouro, a pele de marfim. Havia também grande profusão de cores fortes e brilhantes no escudo e em outras partes da armadura, sem esquecer os olhos, que eram feitos de pedras coloridas. O elmo dourado da deusa era encimado por grifos, e os olhos de uma enorme serpente enroscada dentro do escudo também eram destacados, sem dúvida, por refulgentes gemas. Devia ser uma visão fantástica, inspiradora de profundo temor e reverência, quando alguém entrava no templo e, de súbito, via-se diante dessa estátua enorme. Havia, por certo, um tom meio primitivo e selvagem em algumas de suas características, algo que ainda ligava um ídolo dessa espécie às antigas superstições contra as quais o profeta Jeremias lançava suas invectivas. Mas essas idéias primitivas sobre os deuses como demônios terríveis que habitavam nas estátuas tinham deixado de ser a característica principal. Palas Atena, tal como Fídias a concebeu e modelou, era mais do que a mera imagem de um demônio. Pelas descrições que conhecemos, a estátua tinha uma dignidade que transmitia ao povo uma idéia especial sobre o caráter e o significado de seus deuses. A Atena de Fídias era como um grande ser humano. Seu poder residia menos em poderes mágicos do que em sua beleza. As pessoas por certo compreenderam, na época, que a arte de Fídias outorgara ao povo da Grécia uma nova concepção do divino.

História da Arte, pp 84-86, Rio de Janeiro, 1999.

O livro de Gombrich foi a principal referência para a primeira aula do meu curso de História da Arte na Escola São Paulo. O novo ponto de agitação cultural fica na rua Augusta, perto do Cine Sesc. As aulas acontecem das oito às dez da noite, todas as quartas-feiras.

Atendendo a pedidos, comecei pelos desenhos nas cavernas de Lascaux e Altamira, expliquei as regras da arte egípcia e, por contraste, comparei-a com a arte grega. Para esses “estranhos começos”, Gombrich foi um guia excelente.

O comentário à Athena Partenos foi o clímax da aula. Eu havia me referido oralmente às idéias de Gombrich e, no final, mostrei a imagem acima e fiz questão de ler essas linhas.

O mestre da Históra e da Teoria da Arte refere-se à defasagem da cópia romana em face do original grego que se perdeu e não pode ser imaginado senão por meio de descrições literárias. Com isso, ele nos faz pensar sobre como é difícil analisar esteticamente as obras de arte de outros tempos, sobretudo anteriores ao Renascimento, dos quais não se pode ter mais do que uma compreensão lacunar.

Pensadores como Arthur C. Danto e Hans Belting vivem zunindo na minha cabeça. Eles concordam que as histórias da arte são menos historiográficas e mais como obras de ficção, “narrativas”, exercícios da imaginação que dizem respeito à nossa condição atual e não correspondem necessariamente à realidade histórica. 

Para Gombrich, a estátua de Atena pode ter sido vista como um ídolo demoníaco pelos que acreditavam que as imagens dos deuses fossem ofensivas à “verdadeira religião” (talvez aqueles que a destruíram), ainda que sua principal característica na “realidade” não fosse o sentimento religioso, mas a beleza estética.

Uma terceira Atena seria a única que podemos ver, a cópia romana, que “dificilmente causará forte impressão”. Nessas “fracas imitações”, o poder da beleza foi neutralizado. Ali seu uso era decorativo. Mas, como diz Gombrich,  “devemos ser muito gratos por essas réplicas”, por causa delas é que podemos imaginar.

Hoje, imagens das obras de arte estão por toda parte. É engraçado comparar pinturas egípcias com imagens dos sites de fãs do deus Anúbis, por exemplo. Elas fazem o contrário do que os romanos fizeram com Atena. Eliminam a beleza e potencializam um sentimento estranho e inquietante muito mais contemporâneo do que egípcio.

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- July 8, 2010

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