blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Luiz Zerbini: Rasura

Lançado pela editora Cosacnaify, Rasura rompe o formato convencional dos livros de arte. Dedicado à pintura de Luiz Zerbini, não se presta a documentá-la nem reproduzi-la, mas a comentá-la visualmente. Não há textos críticos, apenas algumas anotações e citações. Se os livros de arte costumam convidar o leitor a se imaginar por um instante diante de cada obra, em Rasura vê-se uma montagem de detalhes de quadros, esboços, recortes de livros e revistas. O leitor nunca se esquece de que está lendo um livro sobre a pintura de Zerbini, em nenhum momento imagina-se espectador dessas pinturas.

Essa “leitura” desdobra-se do caráter narrativo e pop de uma pintura que joga com a reversibilidade entre figuração e abstração. Por vezes azulejos deslocam-se da cena figurativa e tornam-se puros padrões abstratos, mas não deixam de ser imitações de coisas, ao passo que certos objetos, como as plantas, trazem para os espaços interiores a potência criadora da natureza de que o mundo dos homens se ressente, trazem para o mundo da palavra o vazio e o silêncio do “ato criador”. Esse texto de Marcel Duchamp, reproduzido no livro, afirma que a arte supera o artista e no momento em que uma obra de arte é vivida pelo público, o “ato” se consuma. Ler e ver Rasura é sentir a quase identidade desses dois momentos, tal como é proposta em diversas pinturas de Luiz Zerbini.

A mudança de ares do artista formado em São Paulo e radicado no Rio de Janeiro transparece nas pinturas. Somente um paulista ficaria admirado de como as árvores da rua ramificam-se por janelas dos prédios em bairros do Rio, ou travaria uma guerra contra mosquitos. Zerbini capta certa calma carioca, talvez pausa entre tumultos, na observação de plantas caseiras que se intrometem na conversa dentro do edifício. O que se diz nessa conversa poderia ser irrelevante, mas a pintura mostra a vida social em estado de perpétua criação artística, comparável à germinação intermitente da natureza. Em toda parte e a toda hora o mundo da linguagem está sendo fecundado pelo silêncio criador.

Zerbini vale-se da interpenetração entre natureza e espaço urbano, típica da paisagem carioca, para fazer seu jogo entre silêncio e linguagem. As pessoas retratadas às voltas com diversos aparelhos eletrônicos, instrumentos musicais, discos e fitas, ao mesmo tempo criam e escutam, trabalham e divertem-se. Muitas vezes, as personagens dos quadros são artistas, como na série de retratos de Ângelo Venosa em que se discerne ora algo de Francis Bacon, ora de Lucien Freud. Nas referências aos pintores ingleses aflora a presença sombria do silêncio das profundezas de que ainda não se desataram os seres humanos. Já o retrato de Beatriz Milhazes mostra a artista perfeitamente inserida no contexto de seu mundo plástico, alheia às agruras do mundo físico. A experiência estética seria então um modo de contato digno e divertido, não trágico, com o ser bruto das coisas.

Luiz Zerbini também participa das ruidosas performances do grupo “Chelpa Ferro”, célebre, por exemplo, por fazer música com a destruição de um carro. A experiência pictórica em Rasura é o reverso disso, é a possibilidade de um espaço de escuta em meio ao tumulto do mundo, um momento em que o pensamento mais profundo equivale à mais simples observação da realidade imediata. Ou, como na história chinesa citada a certa altura do livro sobre o sábio Tang-tsé, autor de uma filosofia do “não-agir”, a pintura é capaz de exprimir com simplicidade e leveza toda a experiência muda acumulada por uma longa e profunda espera. O imperador pede ao sábio que desenhe um caranguejo. Tang-tsé pede-lhe um castelo, uma dezena de servos e dez anos. Passado o tempo, o desenho ainda não estava pronto. O sábio pede-lhe mais tempo e mais servos. Passado o tempo novamente, o sábio ainda não tem o desenho. Então diante do imperador, Tang-tsé desenhou o caranguejo. Era o desenho mais perfeito que se havia visto.

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- July 8, 2010

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