blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Sartre em Veneza

Os dois textos de Sartre foram publicados originalmente em revistas. Veneza, de minha janela, foi publicado nos números 27 e 28 da revista Verve, em fevereiro de 1953. Trata-se de breve descrição da cidade de Veneza. O seqüestrado de Veneza apareceu no número 141 da revista Les Temps Modernes, de novembro de 1957, e trata-se de vultuosa reflexão sobre a vida e a obra do célebre pintor veneziano Jacopo Robusti (1519-1594), o Tintoretto. Ambos os textos foram publicados em livro no ano de 1964. As vagas e incertas referências de Sartre a fatos históricos, livros e lugares, são explicadas com precisão pelas notas do professor Luiz Marques, da Unicamp.

Em Veneza, de minha janela, Sartre consegue descrever com surpreendente lirismo a luminosidade aquosa da cidade dos canais, uma luminosidade tão singular que muitos críticos afirmam ter influenciado a própria coloração da pintura veneziana. Mas não se trata, nesse texto, de pintura. Trata-se de um exercício literário, de impressões de viagem, do ponto de vista de um turista em visita à nebulosa cidade, envolta por mistérios e por uma história gloriosa. Assim como a coloração da pintura veneziana, que teria absorvido a luz aquosa, a narrativa de Sartre, ou o olhar que a orienta, parece ter absorvido a mesma luminosidade. A água tem “milhares de dobras”, a laguna é uma “grande poça leitosa”, assim também o “olhar desliza”. A cidade toda parece então tomada pelo modo de ser da água, pelo fluxo incessante: “o ar, a água, o fogo e a pedra não param de se mesclar ou de se inverter”. A vertigem arrebata o próprio espectador: “a paisagem gira e eu giro com ela”. “Giramos, teto, chão e eu (…), isso acaba me dando náuseas, esse vazio é insuportável”.

O caráter fugaz, inapreensível, que Sartre observa na cidade de Veneza tem algo a ver com a história da Sereníssima República, a “Rainha dos Mares”, cidade dos doges, que por tanto tempo dominou as rotas comerciais. A nostalgia do Velho Mundo, anterior à descoberta da América, é o grande ponto de contato entre estas anotações de viagem e o ensaio biográfico sobre o Tintoretto. No primeiro texto, Sartre afirma que “a cidade está assombrada”. No segundo texto, justifica-se a preferência por Ticiano em detrimento de Tintoretto com o argumento de que o clacissismo de Ticiano serviria para iludir os nobres, para lembrar o tempo em que tudo era perfeito, em que dominavam o mundo. Ao passo que as cores soturnas de Tintoretto remeteriam à ausência de Deus, à indeterminação dos tempos modernos, à possibilidade de que a cidade, com seus castelos que parecem eternos, afunde-se no lodo.

De fato, Tintoretto é uma personagem perfeita para o “pai do existencialismo”. Filho de um tintureiro, o que lhe valeu a alcunha, Jacopo Robusti teria sido mandado embora do ateliê de Ticiano, quando “o ilustre qüinquagenário descobre o seu gênio e lhe põe para fora”. Há controvérsias sobre a veracidade da anedota, mas segundo Sartre é fato que, embora sem grandes concorrentes de sua idade, as portas estavam fechadas para o jovem Tintoretto, seria “a primeira vez em que uma infância maldita figura na lenda dourada dos pintores italianos”, “uma criança na lista negra”. Sartre carrega nas tintas para retratar Tintoretto como uma espécie de pintor maldito, que teria “acirrados detratores e nenhum defensor acirrado”.

Tal situação teria feito com que Jacopo Robusti atuasse de forma pouco ortodoxa no meio de arte veneziano. Burlava as regras dos concursos, executava cópias melhores do que os originais. Por meio de “artimanha infame e encantadora” o pintor conseguiu vencer seus concorrentes e impor seus quadros e seu nome na sociedade veneziana, mesmo sem a proteção dos nobres. “Até numa cidade comercial, esse comerciante astucioso demais passa por um excêntrico.” Tintoretto se compromete integralmente com as encomendas para poder viver do seu trabalho, é visto como “pintor ilegal”, “colega desleal”, “rebelde, ou pelo menos, suspeito”. Precisava trabalhava o tempo todo, não podia parar: “recusar uma encomenda é dar um presente para os concorrentes”. Sartre vê em Tintoretto um “campeão do liberalismo”, que era obrigado a escolher entre “se impor pela qualidade de sua pintura” e “desistir de pintar”. Sartre não o afirma explicitamente, mas esta equação também remete ao problema do engajamento: condenados à liberdade, cumpre escolher entre ser livre e desistir de viver…

O perfil de Tintoretto seria semelhante à tal ética protestante que seria a base do espítiro do capitalismo, o pintor seria um “moralista austero”, “calvinista nas beiradas”, em sua conduta, haveria as marcas de “pessimismo e trabalho, espírito de lucro e devoção à família”. “Ele não faz diferença entre a independência econômica do produtor e a liberdade do artista”. Para Sartre, esta condição de Tintoretto o teria levado a superar a perspectiva clássica, afeita à aristocracia veneziana que, naquele momento “entra em decadência”. Os pintores clássicos, “Ticiano e Giorgione, Rafael chegam a soluções de compromisso com o Céu”. O filósofo existencialista zomba dos grandes mestres, afirma que “a felicidade de pintar desaparece com esses mostros sagrados”.

Mas o argumento mais forte de Sartre, onde reside a própria força desta narrativa dramática e impregnante, está na profunda identificação da pintura do Tinturetto com a cidade de Veneza. “A pintura do Tinturetto é, em primeiro lugar, a ligação apaixonada entre um homem e uma cidade”. O pintor quis suceder Ticiano, mas nunca obteve o reconhecimento pretendido. “Tintoretto é o pintor deles, mostra-lhes o que vêem, o que sentem: não podem suportá-lo”. Sartre afirma que os nobres de Veneza aprovam Ticiano porque a beleza de sua pintura faz com que por um momento sintam que a República ainda está no auge, como se nada tivesse acontecido: “os turcos não tomaram Constantinopla, Colombo não descobriu a América”. “O Belo parece indestrutível”. Sartre afirma ainda que reprovam Tinturetto por “deixar com que vejam, em toda a parte, sua mão”, como se a pintura de Ticiano merecesse a crítica de que esconderia de forma contumaz a pincelada.

Nos dois textos, Veneza é o símile da altiva pretensão do espírito humano, que por meio da cultura, do engenho, do comércio e da arte, procura se elevar acima do tempo, furtar-se ao “Processo histórico”. Mas a cidade é atravessada pela força inexorável do tempo, pelas águas dos canais, pelas nuvens nas quais por vezes some. “Tintoretto aparece aos contemporâneos como um Ticiano que ficou louco”. Essa “iettatura” veneziana, esse “mau-olhado”, teria vitimado o Tintoretto. “Veneza, inquieta, maldita, produziu um inquieto, amaldiçoa nele sua própria inquietude”.

Publicações -
- July 8, 2010

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *