§

Rodrigo Andrade

Uma das razões pelas quais o grupo paulistano Casa 7 foi uma referência importante nos anos 80 é a retomada da pintura. Havia uma silenciosa proibição de pintar que eles ajudaram a romper. Rodrigo Andrade foi um dos artistas desse grupo, a “casa 7”, onde trabalhavam, era a casa dele. Também participaram Paulo Monteiro, Fábio Miguez, Carlito Carvalhosa, Antonio Malta e Nuno Ramos. Todos tiveram trajetórias independentes e produzem trabalhos consistentes nos quais a origem comum nunca se apaga de todo.

O livro apresenta toda a obra de Rodrigo Andrade, desde a pintura dos anos 80, com características expressionistas, ora figurativa ora abstrata, até as massas coloridas que ele passou a produzir a partir do final dos 90. Estas marcaram uma transformação considerável em seu estilo. Certa vez o artista declarou que era como se tivesse “encontrado a fórmula da felicidade”, uma espécie de porto seguro na trajetória artística.

Dois esclarecedores textos críticos comentam a arte de Rodrigo Andrade. Alberto Tassinari, autor de O Espaço Moderno e inúmeros outros textos importantes sobre arte contemporânea, afirma que as massas de cor se determinam reciprocamente. Nenhuma cor pode ser percebida isoladamente, mas “pelas diferenças em relação às outras”, cada uma “torna-se um padrão” para as outras e assim as grossas massas se suavizam apesar da rudeza material. Produzem entre si um equilíbrio, uma harmonia.

Taísa Palhares, autora de Aura – A Crise da Arte em Walter Benjamin e curadora da Pinacoteca do Estado, reflete sobre as intervenções que Rodrigo Andrade realizou a partir de sua nova pintura, no corredor do MAM de São Paulo (“projeto parede”), no boteco “Lanches Alvorada”, que fica no bairro de Santa Cecília e no Museu da Caixa Econômica Federal, onde Rodrigo Andrade filmou o pitoresco vídeo Uma Noite no Escritório.

Em Paredes da Caixa, Rodrigo Andrade ironicamente apresenta as massas coloridas moderníssimas ao lado de retratos em estilo acadêmico de antigos políticos e figuras históricas. A dissonância é reveladora, assim como no tradicional boteco de bairro, onde as grossas massas de tinta dificilmente são percebidas como obras de arte pelos frequëntadores, mas elas acolhem generosamente o espaço que não as reconhece. Elas o reconhecem, a pátina morosa do dia-a-dia relaciona-se esteticamente com as formas simples, “inexpressivas”, que só se exprimem entre si.

Segundo Taísa Palhares, elas “contaminam” aquele espaço alheio a elas, apesar da sutileza de suas relações. A intervenção diz algo sobre a natureza da pintura, que sempre pretendeu instilar beleza e espiritualidade na matéria inerte e bruta.

O livro Rodrigo Andrade não apresenta uma obra completa, mas a trajetória de um artista em atividade, maduro e que conquistou um espaço na arte contemporânea brasileira.