blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Arte em ação

Vamos empregar dois conceitos da filosofia de Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) para definir uma poética da performance e caracterizar a performance como obra de arte, um dos problemas mais intrigantes da arte contemporânea.

Trata-se dos conceitos de “estado-de-coisa” (Tatsache), ou “fato”, que se aplica à obra de arte como “coisa” – o “conteúdo” ou o “que” é arte – e “estado-de-ação” (Tathandlung), a “atividade pura”, que tanto pode se referir a uma certa visão modernista da obra de arte quanto à performance e aos “objetos relacionais” que fazem do espectador o agente de uma performance – a “forma” ou o “como” da obra de arte.

A pergunta pela performance e a resposta formulada a partir desses conceitos têm lugar a partir da crescente importância dessa forma de arte e da dificuldade de se extrair dela juízos consistentes. Por isso dois jovens e destacados artistas ilustram essa reflexão, que ao mesmo tempo tem o objetivo de esclarecer a arte produzida por eles. Wagner Malta Tavares e Rafael Campos Rocha chegam à performace respectivamente a partir da escultura e da pintura.

A instalação consolidou-se porque a questão da arte passou a ser a questão do espaço. Nesses dois artistas, pode-se dizer que a questão da arte é a “atividade pura”. Seria esse o sentido da performance para eles. No meio de arte ainda não há termos adequados para formular essa idéia. Por isso é preciso recorrer a um dos grandes autores do idealismo alemão.

           

            Filosofia e arte no idealismo alemão

Se a arte é uma forma de tomar consciência de si, ou da “moldura” do mundo, para empregar o conceito de Hans Belting, então a filosofia do idealismo alemão tem razão em muitas de suas afirmações sobre a subjetividade da consciência.

Fichte levou a filosofia crítica de Kant ao ponto máximo do subjetivismo, sobretudo na Doutrina-da-Ciência (1794), em que esses dois conceitos são formulados no contexto da idéia de uma determinação recíproca entre “eu” e “não-eu”, entre a consciência e o mundo.

Estado-de-ação e estado-de-coisa designam para Fichte dois momentos da consciência. Equivalem a forma e conteúdo. Na reflexão, a consciência é o objeto de si mesma. Por isso, a consciência se põe como um conteúdo. Então ela é fato, estado-de-coisa. Mas ao mesmo tempo, ela mesma se põe. Então ela realiza uma atividade pura. Ela é a forma vista como um conteúdo. Ela é “forma da forma”, explica o poeta e filósofo Rubens Rodrigues Torres Filho em sua brilhante tese sobre Fichte, O Espírito e a Letra.

Fichte é um pensador muito próximo de Immanuel Kant, sua “doutrina-da-ciência” pretende ao mesmo tempo ampliar e superar a filosofia transcendental, sem prescindir do criticismo. Não é segredo o alcance da crítica kantiana na teoria da arte, apesar de ser Kant, como diz Arthur C. Danto, um filósofo “tão pouco artístico”. Fichte por sua vez é um filósofo de linguagem talvez tão difícil quanto Kant e que além disso não fez da arte um tema importante, ao contrário de muitos dos grandes mestres da história da filosofia.

Por isso, no vasto círculo de estudiosos da arte que se valem de leituras filósoficas para aprimorar sua capacidade de análise, o pensador alemão ficou à sombra de compatriotas como Schelling, Hegel, Nietzsche e Friedrich Schlegel, que fizeram do pensamento estético um momento decisivo, senão o centro de gravidade, de suas idéias filosóficas.

 

            Um marco do pensamento brasileiro

Felizmente a escrita foi quebrada por Rubens Rodrigues Torres Filho, que traduziu boa parte da obra de Fichte para a antiga coleção “Os Pensadores”. Germanista impecável e também autor de uma obra poética de alta voltagem, seu trabalho oferece um acesso confiável ao texto de Fichte, que ele afirma ser “um dos mais densos e difíceis de toda a filosofia ocidental”. O aviso dantesco (“deixai toda esperança”…) valeria para Kant, o que não o impediu de se tornar uma referência fundamental para a arte também no século vinte.

Então não seria tão inusitado descobrir, no neologismo de Fichte traduzido como “estado-de-ação”, a chave para compreender a nova situação do que se aceita comumente como obra de arte em seu contexto pós-moderno, pós-histórico, ou como, se propõe aqui, reflexivo.

A transposição de conceitos da filosofia para a arte justifica-se pela dinâmica própria da arte, que explicita seu caráter reflexivo. Tampouco as idéias de Kant tinham em foco a arte. O conceito de sublime segundo a Crítica do Juízo não diz respeito à arte, restrita ao domínio do belo por estar presa ao sensível, designa o triunfo da razão, livre da limitação sensível.

Assim como, para Clement Greenberg, a pintura pura refaz o caminho da consciência segundo a crítica kantiana, pode-se ver na performance aquilo que Fichte quis dizer com “atividade pura” e “estado-de-ação”.

Naturalmente, falando sobre arte, não nos encontramos no terreno claro como o sol das idéias filosóficas, mas em meio às vicissitudes do mundo, ao sabor de flutuações do mercado, da indeterminação dos gostos, da arbitrariedade de instituições.

Portanto é preciso distinguir aquelas formas de performance que se desdobram como atividade pura em lugar de positivar um conteúdo, uma mensagem, um significado, que faz do artista o agente de uma fala, um sujeito e um herói. É necessário que essa performance seja autoconsciente e crítica, a ponto de o artista se negar como artista ou como alguém que tenha feito alguma coisa, para além das regras da arte convencional e da performance ingênua.

Joseph Beuys chamou suas performances de “ações”. Com base em Fichte e na tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, adotamos esse termo.

           

            Arte autoconsciente

A forma livre é estado-de-ação, a vontade de deixar a marca da pincelada. A mão do artista afirma que aquela coisa que se chama de obra de arte não se trata de simples representação de outras coisas existentes, mas de nova forma de existir. Essa idéia não é privilégio da arte moderna, norteia toda a arte ocidental. Em Picasso, antes mesmo de Pollock, essa forma, ou estado-de-ação, encontra sua plena expressão.

Rafael Campos Rocha e Wagner Malta Tavares ajudam a objetivar a forma de performance em questão, a performance como ação, que deve ajudar a definir a obra de arte como estado-de-ação.

Tavares é um escultor da ação. Seu recente O Barqueiro é um vídeo que pode ser visto como o registro de uma ação que nenhum espectador presenciou. A escultura, ou a obra de arte como estado-de-coisa, é levada para longe, mas essa ação é o que na realidade permite que ela seja vista, pela sua luminosidade e no modo como se reflete nas coisas. O simbolismo da travessia remete à consciência da morte, que se diz ser traço distintivo da humanidade. Arte e morte são formas da consciência. Nada se sabe sobre elas, mas através delas nos vemos.

Em Rocha, um pintor da ação, o artista abandona por completo a postura heróica que caracteriza a era da arte. Sua “clareza de consciência” (Fichte), ou autoconsciência, é tão intensa que ele se converte em crítico de si mesmo e do seu meio, o que inclui o espectador. Ele chega a atuar como crítico de arte. Apresenta falas (palestras, debates) como obras de arte.

No trabalho Cole suas pinturas uma nas outras, embora não seja uma de suas muitas “ações”, desponta o teor crítico e reflexivo que caracteriza a poética da ação. O trabalho dialoga com Bronze Pintado (1960), de Jasper Johns, a lata de café “Savarin” com material de pintura que o artista norte-americano converteu em monumento ao trabalho de arte.

Cole suas pinturas… é um comentário irônico sobre a obra de arte como estado-de-coisa. Filosoficamente, deprecia o caráter sensível das pinturas em detrimento da desenvoltura de sua agudeza de espírito. Ao mesmo tempo, presta tributo: um fio amarelo de tinta escorre por uma das faces do objeto, uma tela pintada de cinza, assim como o fio que escorre sobre o “a” de “Savarin”, a última pincelada.

Projeto para escrever um livro sobre os meus amigos, 28/11/2008.

Retrospecto, Textos -
- July 8, 2010

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