blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Entre o ser e os outros

A pintura parece ser uma forma diferenciada. Pintores estão para os demais artistas plásticos como a poesia está para a prosa. A pintura se pretende mais próxima da essência da obra de arte, por outro lado, o pintor contemporâneo lida com uma aura de extemporaneidade, como quem escrevesse em língua morta. Isto se dá por duas razões. Em primeiro lugar porque o nosso modo de ver as obras de arte é conseqüência da série de transformações que ocorreram desde o Renascimento até o século vinte, protagonizadas pela pintura. Também porque essas transformações levaram a uma implosão do espaço pictórico.

No caminho de Jasper Johns, Robert Rauschenberg, Hélio Oiticica e Lygia Clark (cito os brasileiros que rapidamente perceberam o rumo das coisas), pintores trabalharam para justapor objetos do mundo real ao plano da pintura, questionando os limites entre a arte e a realidade. Logo a linguagem pictórica passa a valer também para trabalhos tridimensionais. Pintores transformam-se em artistas da instalação. Uma pátina antiga envolve o desenho e a pincelada. Mas a História está repleta de idas e vindas, retomadas e revisões. De algum modo ainda há lugar para a pintura plana depos do século vinte.

Newman Schutze surge no momento dessa retomada. Ao longo dos anos 90, o jovem aprendiz que nasceu em Adamantina e cresceu em Marília lança-se profissionalmente com pinturas adquiridas pelo Sesc, exposições em Nova York e na Alemanha. Sua pintura não nasce pronta, faz-se no confronto entre uma vida interior pulsante e o estudo da produção contemporânea, entre o ser e os outros. A trajetória de Newman Schutze equivale ao desafio do artista contemporâneo, sair de um expressionismo ingênuo e tornar-se consciente de si e do seu trabalho. Nisso reside a universalidade da obra, para além da beleza individual dos quadros de Newman Schutze. Mais do que um pintor modernista, um pintor consciente. A consciência de si é o traço distintivo e a principal característica da arte contemporânea. Com a pintura não poderia ser diferente, a não ser que os pintores se pretendessem separados dessa categoria, o que valeria dizer que nenhuma pintura é contemporânea! Newman Schutze desmente essa posição.

A exposição da Galeria Penteado em Campinas mostra dois momentos desse caminho, os desenhos em nanquim e a pintura a óleo. Existe nas duas formas de pintar uma aparente contradição que se revela como complementaridade. A fluidez das grandes pinceladas em nanquim por um lado e um certo construtivismo de gestos repetidos pelo outro. Mas se olharmos bem para as telas róseo-azuladas compostas por formas paralelas ou quadrados, fica claro que a inexatidão das formas não é circunstancial, mas deliberada. “Cada quadrado é único”, afirma o artista. De fato, sua pintura está mais próxima do lirismo de Paul Klee do que da precisão construtivista. Procure Fogo na Noite (1925) e Polifonia (1932), lá estão importantes referências para a pintura mais recente de Newman Schutze.

A mística do mestre suíço não está no horizonte do pintor paulista. Mas a tensão entre a forma pura e o sentimento do mundo é muito semelhante. Em Klee, essa tensão é espontânea. Em Newman Schutze, ela é pensada. Klee foi músico e acreditava que sua pintura poderia ser “polifônica”, como a música de Bach, que sobrepõe melodias. Uma melodia não resulta da soma das notas, mas da relação entre elas. O mesmo vale para a escrita e as palavras, a linguagem e os signos. Os lingüistas chamam de “diacriticidade” a relação entre os signos, mais significativa do que os signos isoladamente. A pintura de Newman Schutze, assim como a de Klee, é diacrítica, não minimalista. Seu significado está na capacidade de estabelecer relações por meio de diferenças, não na repetição. 

Galeria Penteado, 06/03/2009

Textos -
- July 8, 2010

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