blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

O último Laocoonte

 

PodrePodredeformada

 

Apodrece uma das seis mil maçãs argentinas de Ainda Viva, deforma-se, secreta uma água negra e recende um aroma agradável. Outra se impregna de um púrpura intenso (deep purple), em parte ainda rubra de vigor, quase pedindo uma dentada! A maçã podre é uma coisa feia, realmente, mas o trabalho como um todo é belíssimo.

Como o dia e a noite, a vida e a morte, o belo e o feio compõem duas faces da mesma experiência. Um depende do outro e a arte é o resultado desse contraste. Nem sempre o bem triunfa, mas a tragédia é bela. Édipo mutila os próprios olhos para não ver a desgraça. Antígona quer poupar o corpo do irmão de apodrecer a olhos vistos. A mulher que exuma as cinzas de Fócio não aceita que fiquem longe dos olhos dos atenienses. Cassandra, Medéia… E os gregos inventaram a arte pela arte e o ideal da beleza.

Ao responder à enquete do jornal O Estado de São Paulo sobre o belo e o feio, o poeta Ferreira Gullar, autor de importantes textos sobre arte e principal formulador do Manifesto Neo-Concreto nos anos 60, menciona Ainda Viva, de Laura Vinci. Transcrevo o “Caderno 2” de sábado (24/11/2007):

“Acho que certas manifestações da arte contemporânea não estão preocupadas nem com a beleza nem com a arte. Não existe nem mesmo o critério estético. Exemplo disso é essa instalação com trezentas maçãs sobre mármore. Sinceramente, prefiro as maçãs de Cézanne: duram mais. Quando Cézanne pintou essas maçãs, um crítico disse de certas pinturas realistas que você tem vontade de comê-las, mas ao ver uma maçã de Cézanne, só tem vontade de dizer que é bela. Ele dizia que mudava o mundo com a pintura. Nisso eu acredito.”

Eu não incentivaria um artista a fazer declarações públicas sobre o seu trabalho. O artista faz, não precisa dizer nada. Os outros que falem e se entendam! Mas Laura Vinci foi muito feliz na resposta imediata, publicada com a fala do poeta:

“Gullar não viu minha instalação. Acho que se surpreenderia, pois trabalho com o belo. A idéia é mesmo de que essas maçãs não durem. Meu trabalho lida com a transitoriedade, a transformação. Não existe feio em arte. Feio são as coisas ruins da vida.

Ela conseguiu inclusive diminuir bastante o interesse sobre o livro de Umberto Eco, “gancho” de toda a discussão no artigo de Antonio Gonçalves Filho!

As duas falas retomam um antigo dilema da História da Arte. “Assim na pintura como na poesia”, escreveu o poeta latino Horácio (século I a.C.): “ut pictora poesis”. Contra o tema da equivalência entre poesia e pintura, o dramaturgo alemão G.E. Lessing escreveu Laocoonte, no século XVIII. O ensaio tem o título de uma escultura grega antiga. Nela se retrata o destino trágico do troiano que se deu conta de que o famoso cavalo era um presente de grego. Atena, protetora dos gregos, enviou dois monstros marinhos para devorar Laocoonte e seus filhos. Uma réplica pode ser vista em algum ponto do parque do Ibirapuera, em São Paulo.

É discutível muito do que Gullar teorizou em livros como Vanguarda e Subdesenvolvimento. O “manifesto” tem uma importância muito grande para a História da Arte no Brasil. Os poemas estão entre os melhores desde Bandeira, Drummond e Cabral. Pertenço a uma geração que não conheceu livros de poesia que realmente fizessem diferença. Farewell foi um deles, mas Drummond havia falecido dez anos antes. Muitas Vozes, de Ferreira Gullar, foi outro. Diversos poemas, como se diz, calam fundo: Internação, Os Vivos, O Morto e o Vivo. Em Nova Concepção da Morte, lê-se que “cada enzima (…) veicula, / no processo da vida, esse contrário: a morte”.

Nesse verso condensa-se muito do que Laura Vinci quis fazer em Ainda Viva. As maçãs ainda estão vivas. O apodrecimento não é senão uma intensificação de sua vivacidade: o vermelho e o roxo. Pictoricamente mesmo, a podridão tem certa beleza. Constantemente as “coisas ruins da vida” ameaçam de morte a arte e tudo o que é belo. A parede perfurada por uma rajada de balas é uma evidência disso. Mas os artistas ainda podem extrair desses tempos sombrios algum vigor. Esse é o teor de Ainda Viva, de modo algum se trata de um apodrecimento gratuito ou irrefletido!

Por que se pode falar do feio e não mostrá-lo? A poesia não precisa representar a beleza para ser bela. Por que isso não vale para as artes plásticas?

Segundo Lessing, por causa da “especificidade do meio”. A poesia  (e toda forma de literatura) é uma arte do tempo. Seu modo de exposição é “progressivo”. O sentimento trágico pode ser exposto e depois suavizado pelo próximo verso, a próxima cena, ou a próxima fala. Por sua vez, a pintura (assim como a escultura e todas as artes plásticas) é “instantânea”. O sentimento trágico escancarado comprometeria a obra de arte. Por isso, na escultura, segundo Lessing, Laocoonte não abre completamente a boca (há controvérsias…), suporta o sofrimento com “serenidade”.

É claro que, como autor teatral, Lessing quis defender a sua seara. Exatamente como Gullar. Ele pode escrever o Poema Sujo com suas partes escatológicas como “cocô de gato” e outras menos mencionáveis. Mas em Ainda Viva, “não existe o critério estético”.

Em 1940, o crítico norte-americano Clement Greenberg escreveu Rumo a um mais novo Laocoonte, em que se pergunta sobre as razões da superioridade da pintura abstrata sobre a pintura figurativa naquele momento. Chegou à conclusão de que a abstração realizava a “especificidade do meio”, acabava com a confusão entre as artes. Aceitando o caráter plano da pintura, a “pincelada” representava a “pureza pictórica”, eliminava da pintura todo caráter “literário”: tema, assunto e conteúdo.

Para Greenberg, originalmente um crítico literário, estava em curso uma guerra mundial na cultura e a evolução da “pintura modernista” rumo à sua especificidade seria uma espécie de revanche contra a literatura que teria predominado desde o século XVII.

O embate entre Ferreira Gullar e Laura Vinci, um grande poeta e uma grande artista, não se trata de apenas uma das pitorescas excentricidades da arte contemporânea, como vacas pelas ruas e a Bienal do Nada.

Tampouco se trata da teoria do belo e do feio. Aliás, as pessoas salivam sobre as maçãs de Cézanne como se fossem o “belo em si” de Platão. Como será que vêem Achille Emperaire, retrato do amigo do pintor, anão e deformado? Indiscutivelmente se trata de um homem muito feio. Mas é comovente pensar como a pintura é capaz de extrair dignidade de um corpo tão desfavorecido. Na verdade essa dignidade que a pintura vê não está no corpo físico, mas na sua presença.

Que dizer então das figuras bizarras de Goya? Não haveria em Goya “critério estético”?

O entrevero entre o poeta e a artista é a mais recente manifestação da antiga disputa entre a literatura e as artes plásticas, as artes do tempo e as artes do espaço. Por muito tempo a pintura submeteu-se a um texto que era preciso ilustrar, a um fato que era preciso narrar. Hoje os escritores precisam aprender com as artes plásticas (como Gullar sempre procurou fazer) e muitas vezes precisam disputar terreno com elas (como ele parece ter feito agora).

Retratar o feio na arte não significa fazer uma coisa feia, significa ser capaz de fazer arte até mesmo a partir do feio e de algum modo torná-lo belo. Rembrandt fez isso (Boi Esfolado), Goya fez isso, Cézanne também, Baudelaire (A Carniça) etc etc. E Laura Vinci também.

26/11/2007

Exposições, Retrospecto -
- July 8, 2010

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