blog do Bento

Textos de José Bento Ferreira

Reagente, de Sérgio Sister

A intenção incerta de uma pincelada, o gesto acidental de um respingo de tinta, embora tão sutis, podem ser carregados de sentido a ponto de encarnar idéias e valores que pouco significariam se apenas fossem mencionados por palavras, sem essa experiência. Sérgio Sister faz a superfície reagir aos desenhos em lugar de cobrir com tinta um anteparo inerte. O papel absorve o óleo usado na composição das tintas e crispa-se por força das compactas formas de cores metálicas. Acidentes salpicam os quadros, pentimentos transparecem em meio a vigorosas marcas de gestos manuais, cristais de cor e luz granulam no encontro das pinceladas, mas nada disso abala a forma austera dos desenhos, assim como nenhum desses elementos se impõe sobre a superfície para corresponder a um desígnio prévio. As partes desenhadas permanecem recolhidas a espaços definidos para que se afirme o “não-desenhado” como parte do desenho. Trabalhos tão pictóricos podem ser chamados de “desenhos” porque não são produzidos pela pincelada absoluta que caracteriza a pintura, que abole a tela e cria um mundo. São feitos por uma arte de domar a absorção e valer-se da resistência das coisas. Recusa-se a pretensão de criar a partir do nada para aceitar as propriedades peculiares de cada material. Também a “tinta” perde o caráter absoluto que adquiriu na pintura moderna, o próprio nome soa como uma generalização apressada. Tornam-se aparentes as substâncias que a compõem, óleo, cera, alumínio e diversos pigmentos dividem-se nessa reação química, embebem o papel absortas, entregues a uma espécie de alheamento. O resultado dessas experiências não depende da vontade de quem as elabora, mas da ação desses “reagentes”.

CEUMA, outubro de 2006.

Retrospecto, Textos -
- July 9, 2010

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