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A imagem manipulada

Fazia frio na noite de domingo quando uma pequena multidão fechou a rua Leôncio de Carvalho na esquina com a avenida Paulista para ver Peter Greenaway fazer com a imagem em movimento aquilo que os dj’s fazem com o som nas baladas.

Paulistanos amam baladas de música eletrônica. Mas também amam o cinema. Por isso quando ele perguntou: “cinema is dead, don’t you think so?”, houve murmúrios de estranheza em meio ao sonoro “yeeeeah”.

Greenaway apresentou A Life in Suitcases, um espetáculo em que diversas partes daquilo que seria um filme são projetadas em várias telas em série. Na ocasião, uma das projeções foi realizada sobre o prédio do outro lado da rua, às costas do público, criando assim uma nova perspectiva em que o público fazia parte do espetáculo.

Consegui enxergar um monitor em que dezenas de seqüências cinematográficas transcorriam simultaneamente em pequenos quadros, como no editor de imagens de qualquer computador. Imagino que seja assim que Greenaway seleciona o que lhe interessa em determinado momento, projetando lado a lado determinadas cenas e criando relações entre as imagens.

Além disso, há a música. Sabe-se como ela é importante para um filme, sobretudo para os de Peter Greenaway, que tornaram mundialmente famoso o compositor britânico Michael Nyman. No espetáculo, há uma alternância entre a música erudita típica de trilhas sonoras cinematográficas e a música eletrônica pop, dançante.

É claro que quem manipula a música é Greenaway, ao mesmo tempo em que manipula as imagens. No centro de tudo, ele permanece visível o tempo todo, como um maestro ou um dj. Lançando projeções de imagens ao redor de si, sua figura também lembrava a de Jackson Pollock, naqueles registros em que ele aparece espirrando tinta nas grandes telas deitadas ao chão, fazendo o seu famoso “dripping”.

Greenaway está descontente com a posição que os espectadores são obrigados a tomar dentro das salas de exibição. Afirma que “o cinema virou uma arte burra” e que as pessoas não agüentam mais ficar duas horas sentadas olhando para a tela. Por isso, ele fez da sala de exibição e da sala de edição um só lugar. Um cineasta certa vez afirmou que é na sala de edição que o filme é feito de fato. Greenaway leva essa afirmação às últimas conseqüências. E se esse “fazer” do filme é o que há de mais importante em qualquer filme, então já não é possível simplesmente reproduzir filmes. É preciso fazê-los diante das pessoas, ou com elas, para que o público assista à ação do fazer, não apenas à coisa feita.

Peter Greenaway não pode ser chamado de cineasta pelo que ele fez domingo à noite. O cinema para ele acabou mesmo. O que ele fez ali foi arte contemporânea. E do mais alto interesse.

02/10/2007