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A melhor obra de arte do ano de 2010

 

Vigília, de Marco Giannotti e José Spaniol, no Mosteiro de São Bento.

Vigília, de Marco Giannotti e José Spaniol, no Mosteiro de São Bento.

 

Há um modo de pensar que considera a arte contemporânea um tipo de produção voltado para especialistas, não porque sejam mais capazes do que os outros para compreender ou apreciar, mas simplesmente porque trabalham com isso, mais ou menos como a atividade acadêmica.

É uma posição compreensível, faz sentido em muitas situações. Creio que seja até mais defensável do que a posição simetricamente oposta, segundo a qual a arte deve satisfazer um grande público.

Porém, como disse um sábio, os contrários se complementam e os momentos mais vibrantes da atividade artística a meu ver são aqueles que transpõem esferas, ou problematizam o intransponível.

Talvez o melhor da exposição “Arte e espiritualidade” no Mosteiro de São Bento, em janeiro e fevereiro de 2010, não tenham sido os trabalhos de Marco Giannotti, José Spaniol e Carlos Eduardo Uchôa, nem as alas secretas então abertas ao público, mas os próprios espectadores comovidos e desconcertados com o tratamento intelectualizado daquilo que para muitos é o avesso do intelecto.

Isso sim é politização da arte.

Vigília é o trabalho produzido por Giannotti e Spaniol no auditório, logo diante da entrada. Muitos visitantes não o viram, ou porque não o notaram na sala escura a caminho dos corredores, ainda se movendo com a pressa das ruas, ou por pudor de entrar no espaço solene.

É um trabalho simples, a meu ver uma grande vantagem sobre os mais celebrados do ano. Certos artistas parecem não se dar conta de que o excesso de sinais enfraquece o sentido, sobretudo quando o sucesso lhes sobe à cabeça.

Não havia uma indicação clara de que o enorme auditório fazia parte da exposição. Aparentemente mergulhado na penumbra, abrigava um telão com a imagem, também obscura, de velas votivas.

Quem passasse pelo corredor à direita do auditório veria as velas originais sob a mira de uma câmera que transmitia ao vivo a imagem delas.

“Vigília” é estar desperto. É também velar os mortos. No tempo em que não se media o tempo com a precisão dos minutos, o sono era dividido em dois. Despertava-se no meio da noite. Esta hora se chamava “vigília”.

Sono e vigília, luz e treva, são metáforas típicas do sentimento místico e religioso, assim como das tentativas filosóficas de “iluminação”, esferas com as quais a arte sempre manteve uma relação tensa, talvez porque no fim de contas um mesmo problema se formule nas duas: a experiência objetiva daquilo que por definição não pode ser um objeto.

Porque as obras de arte quase sempre ainda são coisas e apenas indiretamente podem se referir ao seu sentido. Estão, como diria Hegel, “fora de si”, remetendo-se a um conceito do qual nunca se pode ter a intuição.

O espectador pode se exasperar com o espetáculo das velas ardendo projetado na escuridão, mas por trás dele estão os tubos de cera pateticamente se derretendo com míseras chamas. O verdadeiro “original” daquela representação não é nada de espiritual, mas apenas coisas.

Como disse Novalis, “procuramos o icondicionado e achamos apenas coisas”.

Vigília é uma obra de arte pop. Assim como as serigrafias e filmes de Andy Warhol, o tema é a imagem pura e simples. Não a imagem de algo, mas a imagem em si mesma.

Ela é a luz possível que se revela na arte.

 

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