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Célia Euvaldo: brancos

Os quadros de Célia Euvaldo exigem uma observação prolongada. Apenas lentamente a visão se acostuma às suas variações a ponto de poder diferenciá-las. Com o passar do tempo eles contam como foram feitos, conforme se distinguem as diversas formas de pincelada e as regiões em que a tela não foi pintada. Faixas lisas ou frisadas, reentrâncias, linhas traçadas pelo acúmulo de tinta, o espaço em branco: estes são os elementos fundamentais desta pintura, como se fossem uma notação musical ou termos de uma fala. Mas na arte não há notação nem alfabeto, em cada experiência trata-se antes de tudo de criar uma linguagem.

À primeira vista, a impressão é de aridez e silêncio, de pureza formal e plena ausência. Não há nem mesmo um desenho que apareça de início, como nos quadros mais conhecidos da artista. Neles, ressaltava-se o contraste. Agora, o olhar fica sem chão, falta-lhe o equilíbrio, em vão procura apoio em formas e cores definidas. Mas não se trata de espaços em branco e sim de espaços onde tudo é possível, onde a realidade da pintura revela-se indefinível e quase invisível. Isto não significa que seja nula ou ínfima. Uma vez que se distinguem a tela pintada de branco e a tela em branco, a pintura descerra um combate entre o silêncio e a expressão. Os gestos da pintura são testemunhos deste confronto, ainda que suaves e sutis como passos de dança.

O valor de cada gesto é atribuído pelo conjunto, as grandes pinceladas passam uma pela outra e assim desenha-se a dança da pintura. A pincelada expõe o movimento manual e contínuo que a realizou. Pinceladas se recobrem e a continuidade dos gestos permanece preservada em formas improváveis. Essas reentrâncias são vestígios de gestos. A partir delas os quadros se redesenham diante do espectador. Nelas se condensa a fluidez e torna-se visível o manuseio. O modo fluido e contínuo aparece então no interior de formas definidas que só poderiam ser criadas por sobreposições, pelo combate.

A mão humana jamais conseguiria demarcar tão minuciosamente o movimento de grandes pinceladas. Mas a artista fez com que os gestos se apaziguassem e nisto consiste a diretriz de sua poética. Para tanto, foi preciso inventar uma linguagem pictórica. Na arte contemporânea, não há uma linguagem prévia que possa ser retomada e modificada, ou seguida como receita. O modo de fazer e o que se faz são o mesmo. A linguagem muda da pintura não é desprovida de conteúdo, é tão depurada que exprime apenas o seu próprio modo de constituição. É o que se vê nesses quadros, quando se olha com atenção.

Pinacoteca do Estado, 2006.