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Metáforas da catástrofe

O galpão de 25 x 12,5 metros da Kunsthalle Exnergasse integra o grandioso complexo cultural WUK, de Viena, que em alemão é a sigla para “oficinas e casa de cultura”, uma organização que afirma ser “o maior centro sócio-cultural da Europa”. O WUK destina o espaço da Kunsthalle para exposições temporárias e está aberto a propostas de artistas e curadores.

Entre as exposições agendadas para 2007, aquela que toca as questões mais quentes da atualidade foi concebida pela dupla de curadoras Vera Tollmann e Sophie Goltz, Nachvollziehungsangebote – Offers for re-enacting, título capcioso que lida com o duplo sentido jurídico e artístico da palavara “execução”. Assim como o artista executa a obra de arte, executa-se uma sentença, por exemplo. Daí, “propostas de re-execução”. O fio condutor da mostra, que prevê reunir dez artistas de diversos países, não passa pelo que se pode revogar, como as leis, ou retocar, como as obras de arte. A relação entre a humanidade e o meio-ambiente é o denominador comum entre os artistas convidados.

Nada mais atual no ano que promete ser marcado pela constatação da irreversibilidade da catástrofe, como alerta o relatório da ONU sobre mudanças climáticas, recentemente divulgado. Mas o que isso tem a ver com arte? É a pergunta natural. E é justamente essa a questão, ou melhor, como pode a arte ter a ver com isso?

Há um tipo de relação entre a arte e os temas da atualidade que é extrínseca e simplifica a experiência estética. Mas a arte pode formular questões sobre a vida a partir de uma reflexão sobre os seus próprios meios, então é que a arte é contemporânea, ou atual.

O trabalho de Ursula Biemann já foi mostrado no Brasil em 2005 durante uma palestra da artista na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Black Sea Files é uma série de vídeos produzidos ao longo do oleoduto que transporta óleo cru do Mar Cáspio até o Mar Negro, passando por Azerbaijão, Geórgia e Turquia. O combustível fóssil alimenta as engrenagens do desenvolvimento econômico na Europa Central.

A principal característica dos vídeos é a seqüência não-linear, em contraste com o fio condutor, a “pipeline” que bombeia óleo negro por baixo da terra. As cenas do cotidiano passam a ter um significado mais profundo a partir das informações geopolíticas acerca da realidade macroeconômica que pulsa por trás delas.

Nossos laços de família, nossa vida noturna e nossos bens de cultura são conseqüências de uma atividade econômica e industrial extremamente destrutiva. Arquivos do Mar Negro, assim como toda a exposição Propostas de re-execução, apontam para a falácia do “discurso da sustentabilidade”. A idéia de que os meios de produção possam evoluir para um “desenvolvimento sustentável” seria absurda, pois o caráter destrutivo é inerente ao desenvolvimento.

A crítica ao “otimismo tecnológico” e à “razão instrumental” é matéria da arte porque o fazer artístico é o oposto da tecnologia industrial. Arte é super-estrutura, tecnologia é infra-estrutura. Arte é reflexão, tecnologia é repetição. Arte é pessoal, tecnologia é mecânica. E por aí afora.

Dan Peterman é uma artista norte-americano que costuma realizar esculturas com plástico reciclado. Sua arte não procura apenas intervir minimamente na realidade, o uso desse tipo de material tem o sentido de expor o lixo produzido pela sociedade. Não se trata então de “arte ecológica”, trata-se de uma “arte crítica”, que desmente as boas intenções da sociedade.

A Estufa de Peterman fez a cabeça de jovens universitários alemães no final dos anos 90 e deverá ser remontada em Viena, agora com novos significados. Peterman fez uma estufa no campus de Universidade de Lüneburg, no norte da Alemanha. A estufa mudava de lugar e continha mudas de árvores que simbolizavam a quantidade de CO2 emitido por um automóvel em determinado tempo.

O desenvolvimento sustentável estava no horizonte e o senso comum era de que um certo alarmismo distorcia a verdade dos fatos. O otimismo ambiental andava de mãos dadas com o otimismo político. Hoje, ambos se renderam: os otimismos e as verdades foram explodidos e bombardeados. Estufa era uma metáfora da catástrofe, apropriava-se da palavra – “efeito-estufa” – para construir um objeto que poderia representar a salvação, mas que, por não se sustentar, acabava representando suas conseqüências funestas. Agora, a catástrofe já não é um perigo iminente, mas uma realidade e Estufa já não designa tragédias anunciadas mas acontecimentos recentes, assim como as catástrofes humanitárias que deles se seguiram.

Tudo o que está por se perder, o mundo tal como o conhecíamos, a artista croata Kristina Leko condensa na figura das mulheres leiteiras de Zagreb. Rostos que exprimem os conflitos ancestrais dos bálcãs, portadoras do sumo da vida, até mesmo fotografadas por turistas, elas estão sumindo por causa do desenvolvimento econômico. Assim como o desenvolvimento destrói o meio-ambiente, também incinera o legado cultural dos povos e verte o carbono fumegante no interior da estufa global. Natureza e cultura: ambos perecíveis.

Há artistas que desejam quebrar a estufa do meio de arte e praticam uma espécie de ação política, como a sueca Asa Sonjasdotter e o dinamarquês Tue Greenfort. Ela realiza uma pesquisa de campo sobre o cultivo de batatas. Levado da América, o alimento foi fundamental para enfrentar as graves crises que se abateram sobre o Velho Mundo. Apesar de ter salvado incontáveis vidas e de integrar pratos típicos de diversos países, o tubérculo também consolidou a prática da monocultura, uma das causas do desequilíbrio ecológico na Europa.

Tue Greenfort é de 1973, o mais novo dos artistas que integram a mostra. Ele pretende construir na Kunsthalle um banheiro que funciona com água da chuva, tal como fez em Marselha, recolhendo a água usada na limpeza das ruas. É claro que sua intenção é sensibilizar o público a respeito do desperdício de um recurso vital. Mas ao mesmo tempo o trabalho sugere interrogações sobre o lugar da atividade artística em face dos problemas do mundo da vida. A iniciativa do jovem nórdico não é apenas uma simples ação política, acusa a arte de se esquivar da realidade. Seria uma ação política se fosse realizada de modo idêntico na Kunsthalle Exnergasse, mas não constasse do programa de exposições. Por fazer parte do show, e por sua eventual remoção no dia 27 de outubro, quando a água restante deve ser devolvida às ruas, a ação política passa a ser dirigida para o mundo da arte e adquire um novo sentido, pois passa a fazer a crítica das formas de arte.

Esses meandros teóricos da arte contemporânea são fartamente explorados por uma exposição de artistas que testam os limites entre a arte e a realidade. Uma das formas dessa oposição é o par de opostos formulado pelo filósofo Walter Benjamin (1892-1940): a “estetização da política” seria a forma fascista de padronização através da tecnologia industrial, a “politização da arte” seria a forma revolucionária.

René Luck vê a politização da arte com ironia ao trabalhar com ícones da cultura de protesto dos anos 80. Por que ironia? Pela nostalgia inspirada por símbolos e objetos que perderam contundência. Os cartazes eleitorais do partido verde alemão confrontam-se à realidade que viu os Verdes no poder. No Brasil pode-se dizer que os filhos do entusiasmo democrático dos anos 80 experimentam semelhante decepção desde a crise política de 2005. Se a lembrança de símbolos da luta política é nostálgica, a representação artística dessa lembrança pode ser irônica, porque cinicamente atesta a impossibilidade de uma experiência nova.

A apresentação do Fogão Solar de Luck tem o mesmo sentido crítico do banheiro pluvial de Greenfort. Os dois objetos poderiam ser vistos como produtos de um designer ambientalista, candidatos à comercialização. Mas, no espaço expositivo, transfiguram-se em arte autoconsciente. São coisas únicas, não foram feitas para ser reproduzidas.

A arte fascina pelas mudanças de sentido sobre as coisas que entram em sua esfera, o que também vale para a moda, por exemplo, como se vê nas estampas de Che Guevara e de camuflagens militares, que podem entrar e sair de moda independentemente de conotações políticas. Em certo sentido, nós contemporâneos, sejamos do mundo da arte ou do mundo da moda, somos todos filhos de Andy Warhol (1928-1987), que dissolveu estética e política, realidade e representação.

O britânico Nils Norman que o diga. O artista, célebre por intervenções urbanas, realiza grandes cartazes que lembram certos quadros do grande mestre da pop art. Os cartazes da série Dissonâncias são feitos para o espaço público. O objetivo é surpreender os passantes, provocar uma experiência de choque. As imagens de cores fortes mostram espaços interiores, como quartos e salas. Devem ser vistos pelas ruas, onde não se espera encontrar interiores, mas apenas a opaca exterioridade das grandes cidades modernas.

O trabalho de Norman liga-se a certas experiências de Robert Smithson (1938-1973), um dos mais importantes nomes da “land art”. Norman se vale da idéia de “pitoresco” pensada por Smithson, de uma “paisagem que retém as mudanças produzidas pelo tempo e pela história” em lugar de uma paisagem “idealizada”. Opaca e impessoal, a cidade moderna não aceita nada que não seja carimbado e oficializado pela autoridade pública, a surpresa provocada pelos cartazes seria “pitoresca” nesse sentido: produziria uma marca pessoal ali onde reina a assepsia urbana. Seria interessante trazer Nils Norman para um passeio pelas grandes cidades brasileiras, onde a opacidade e o caráter impessoal do espaço urbano convivem com a permissividade com tudo o que é clandestino e onde a miséria obriga muitas pessoas a morar nas ruas.

Jan Wenzel e Anne König formam uma dupla de artistas nascidos na antiga Alemanha Oriental. Cresceram no lado de lá e eram adolescentes quando o Muro de Berlim caiu e o país foi reunificado. Wenzel e König realizaram trabalhos sobre a transição do socialismo real para a sociedade individualista. O projeto deles é montar um áudio sobre a conscientização a respeito dos problemas ambientais. A idéia é simular “vozes da consciência” e discutir a difícil interação entre os indivíduos, a sociedade e o meio-ambiente.

O escocês Simon Starling apresenta uma bicicleta à qual foi acoplado um motor movido a água e oxigênio, usada para atravessar o deserto de Tabernas, na Espanha. O alemão Ingo Vetter vai plantar árvores-do-céu nos arredores de Viena. Trata-se de uma planta ornamental chinesa que tornou-se verdadeira praga nas grandes cidades do hemisfério norte. Acostumada com terrenos repletos de detritos e ar poluído, foi por Vetter convertida em símbolo do abandono.

A exposição concebida pela crítica alemã Vera Tollmann, formada na Inglaterra, em parceria com a socióloga suíça Sophie Goltz, aposta na arte como intervenção. O novo engajamento dos artistas europeus não propõe o ambientalismo ou o socialismo como soluções para os problemas da humanidade: limitam-se a apontar para a iminência do abismo.

Quanto à arte, resta imitar a ação política, transformando-a em algo menos vão, mais visível. A ação política deixa de ser um discurso literal ao se transformar em forma de arte. Torna-se uma mensagem reflexiva e impregnante.

Ao andar pelas ruas de qualquer cidade, a consciência estará sujeita aos súbitos sussurros que nos lembram de que somos pequenas peças da gigantesca engrenagem que está corroendo o mundo: metáforas da catástrofe.

Revista mag! número 4 (2007)