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A melhor obra de arte de 2012

 

Inabsência, de Arthur Lescher

 

Aprendi com Carlos Fajardo a desconfiar da expressão “site specific”, um tipo de arte desenvolvido para certos lugares sem os quais o trabalho não existe ou deixa de fazer sentido. “A história do site specific é uma história curta, não sobrevive aos próprios
trabalhos”, afirmou o artista e professor, na entrevista publicada aqui.

Inabsência, de Arthur Lescher, pode ser vista como algo mais do que um trabalho que acaba quando sai do lugar. Ao retomar o projeto inacabado de Ramos de Azevedo para o Liceu de Artes e Ofícios, onde hoje está a Pinacoteca do Estado, Lescher escolheu a cúpula e produziu uma imagem invertida dela no espaço sobre o qual ela deveria estar, que tem sido chamado de “octógono” e abriga trabalhos de arte contemporânea.

Não é um trabalho sobre o octógono, mas sobre a cúpula. Como indica o título, sobre a falta de uma cúpula. Ao ser removido, o trabalho de Arthur Lescher permanecerá in absentia, como dizem os juristas sobre o réu que falta ao próprio julgamento, tanto quanto a cúpula que o artista revelou.

O título do trabalho é apresentado como um neologismo, mas não consta do meu Houaiss. A bela palavra “inabsência” faz parte do trabalho, acentua seu caráter reflexivo. Assim como as cadeiras de Kosuth são “uma e três” (a coisa, a imagem e o conceito), Inabsência apresenta um modelo de cúpula projetado a partir de uma cúpula não realizada que faz pensar sobre a forma arquitetônica da cúpula em geral, a sensação de quem a vê ou está sob ela e o seu sentido na história da arte como um todo.

Caminhando sob o modelo invertido de cúpula criado por Lescher, ao redor do pontilhão, a luz que entra pela clarabóia (onde haveria um espaço fechado) lembra o ósculo do Panteão de Roma, a estrutura clássica que fixou a forma dos templos redondos, que era a das primeiras grandes igrejas cristãs (Santo Sepulcro em Jerusalém e Santa Sofia em Istambul).

Por oposição ao espaço aberto das arenas, associados a sentimentos expansivos e catárticos, a cúpula do Panteão, iluminada por luz natural, inspira reverência e convida à introspecção. Assim como os desfiles do Coliseu, que apresentavam homens e feras de diversas regiões do Império, o Panteão foi feito para todas as religiões.

Por diversas razões, a forma da cúpula foi abandonada, até que, no século 15, Filippo Brunelleschi a retomasse para a reforma da Catedral de Florença.

Brunelleschi foi protagonista de uma dessas “ressurreições” da história da arte de que fala André Malraux:

“Cada ressurreição seleciona aquilo que recorda… Acidentes causam prejuízos e o Tempo transforma, mas nós é que escolhemos”, André Malraux, As Vozes do Silêncio (1953).

O Domo de Florença celebra a harmonia entre natureza (paisagem), cidade (homem) e espírito (religião) que caracteriza o Renascimento e possibilita a idéia de obra de arte que ainda temos hoje. Por enquanto. Ou até a próxima “ressurreição”!

A simples presença física de uma cúpula pode ser perfeitamente banal, sem significado, como em tantas construções do século 20, comuns no centro de São Paulo. É por causa da ausência que a estrutura criada por Lescher remete-se à severidade dos antigos e ao humanismo renascentista.

Assim como o arquiteto Filippo, artista frustrado, retomou técnicas antigas para construir a cúpula sobre Santa Maria del Fiore, o artista brasileiro pesquisou o projeto original do prédio. Desta vez, porém, a obra de arte não é uma construção, mas uma reflexão.

Aqui, uma reprodução do projeto de Ramos de Azevedo para o prédio da Pinacoteca com uma cúpula imponente e mais fotos do trabalho de Arthur Lescher.

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