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WMT: o serpentear das ondas de perfume

Aby Warburg proferiu em 1923 uma conferência lendária sobre suas observações de danças e desenhos dos índios Pueblo do Novo México (EUA). Segundo o fundador da iconologia e inspirador da história da arte como ciência da cultura, as ondulações da serpente mítica, certas formas da arte clássica greco-romana e da pintura renascentista teriam algo em comum.

Ritual da serpente, um relato de viagem, foi apresentado na clínica de Ludwig Binswanger, onde Warburg foi internado de 1921 a 1924.

Warburg também associa a serpente aos raios de tempestades e às redes de fios de cobre que ele viu dominar as paisagens urbanas. O serpenteado assume o sentido geral de transmissão. Geral porque pode ser atribuído tanto à história da arte quanto aos meios de comunicação de massa.

O crítico Arthur C. Danto, que faleceu recentemente, foi bom observador do fundo filosófico de certos problemas a princípio ligados apenas à produção artística:

“Ninguém, nem mesmo Giotto, pode representar visualmente o fedor” (Philosophizing art).

Por isso nos quadrinhos, segundo Danto, o cheiro pode ser representado por linhas onduladas. Embora sejam meramente convencionais (podem ter outro significado de acordo com o contexto) e não pertençam à representação, como as auréolas, elas indicam o caráter metafórico de todo espaço pictórico. Isto é, que o espaço da pintura é sempre uma metáfora.

Perfume de princesa, de Wagner Malta Tavares, não sendo uma pintura, reproduz o serpentear das transmissões tecnológicas de energia e imagens com os volteios dos tubos que brilham ao sol e com as ondas de perfume que se espalham pelo ar.

 

Contra a impressão de que as ondas de energia e o ciberespaço são neutros ou pertencem a um outro mundo, virtual, os perfumes de WMT proporcionam às imagens transmitidas nesse mundo o corpo que elas perderam ao ser digitalizadas e a imagem que a memória histórica perdeu ao ser esterilizada. A própria estrutura metálica aponta para uma forma mais primária do serpentado comunicativo: o traçado das ruas (o serpenteante traçado das ruas do centro de São Paulo).

A memória histórica também pertence à ordem dos “acontecimentos” cuja “representação está além dos limites do seu meio” (Danto) e ainda assim essa memória aflora em forma de perfume. Alain Corbin demonstrou que os perfumes florais resultaram do disciplinamento do olfato a partir do século XVIII. Aromas como jasmim, que se espalham a partir de ventiladores brancos, angélica (rosa claro) e alfazema (roxo), não só recriam a atmosfera do século XIX, mas encarnam o caráter cosmético do modo como se pretende preservar a história do Solar da Marquesa de Santos e da Casa da Imagem.

De um lado, uma história esterilizada, do outro, a incomunicabilidade da arte contemporânea. Direita e esquerda, presente e passado, cortados ao meio pelo raio de tubos brilhantes que recendem, em determinados lugares (onde o tubo enrodilhado forma volutas), perfumes não necessariamente mais intensos (porque a intensidade de um perfume poder ser usada para encobrir), mas mais fortes e arcaicos, como o perfume de rosas (ventilador da cor de rosa forte), considerado o mais antigo, e uma composição de diversas substâncias orgânicas, o aroma do sexo (vermelho-sangue).

O Beco do Pinto, que serpenteia entre o Solar e a Casa da Imagem, tampouco resiste ao processo de desmaterialização da história e da comunicação que os perfumes de WMT e sua máquina serpenteante evidenciam: o portão para a região próxima à rua 25 de Março fica trancado, impedindo que o Beco seja uma viela, uma passagem, de modo que o complexo museológico que ele integra mantenha o mundo da arte num mundo virtual. Um espaço que só é público para um tipo perfumado de público.

Ao contrário de muitos vizinhos que quiseram preservar a pureza de sua propriedade, Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, voluntariamente doou parte de seu terreno para a retificação do rio Tamanduateí, feliz com a nova frente que o casarão receberia (relata o biógrafo Paulo Rezzutti).

Parece contrário a esse espírito que se impeça a passagem, embora a higienização seja sinal dos tempos: até no túmulo onde Domitila é venerada por muita gente, é proibido “acender velas e depositar objetos”, mas se permite a idolatria letrada de apliques que retribuem “graças recebidas”.

Perfume de princesa

Os odores dos outros

Túmulo da marquesa de Santos