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A melhor obra de arte de 2013

Poente, de Felipe Cohen

A incerteza sobre a história potencializa a imaginação de quem visita as ruínas de taipa de pilão restauradas como Capela do Morumbi. A edificação pode ser muito mais antiga do que o documento de 1825 da fazenda de John Rudge, mas não é certo se era consagrada a São Sebastião dos Escravos ou se pertencia ao cemitério dos proprietários. Nem se sabe se foi mesmo uma capela ou uma espécie de celeiro, o que talvez a assemelhasse mais ao local onde nasceu Jesus.

Religião não é um tema para Felipe Cohen, mas sua arte é capaz de explicitar “traços” de “modelos religiosos” que, como descreveu o antropólogo Jack Goody, não deixam de “determinar concepções de mundo” em sociedades pretensamente seculares. Isto é possível por causa da tensão entre objetos comuns e a subjetividade dos trabalhos produzidos a partir deles. De algum modo essa tensão remete à experiência religiosa, que também se constitui como negação da realidade imediata, ou de uma experiência direta da realidade imediata.

O raciocínio do filósofo Immanuel Kant de que uma questão de fé só pode ser pensada racionalmente se for reconhecida como objetivamente insuficiente, não podendo ser candidata a um saber, cai como uma luva sobre o trabalho de Felipe Cohen. A questão sobre o que foi a Capela do Morumbi talvez não possa ser respondida, mas poderia ser se determinadas informações fossem obtidas. Trata-se de uma questão histórica e antropológica, portanto empírica e objetiva. Esta questão é análoga à questão sobre a representação na arte figurativa. Um trabalho como Poente, porém, não deve conter os elementos necessários para uma resposta definitiva sobre o que representa. Talvez a questão sobre a representação simplesmente não se aplique e a questão sobre o trabalho de arte seja, como diria Kant, subjetivamente suficiente.

Mas então o que é, no trabalho de Felipe Cohen, o poente? O galho mergulha no chão espelhado como o sol no horizonte. O que está além do horizonte (e portanto do campo de visão) seria o reflexo, a imagem, em que o objeto real (o galho) mergulha. Por outro lado, a luz que vem da porta é horizontal, como a luz do pôr-do-sol. Ela separa o galho em duas partes de luz e sombra, assim como os reflexos no chão separam imagem e realidade em duas partes do trabalho. O título também conota a ação de pôr, que é como o trabalho foi feito: o galho posto sobre o chão. As interpretações são tão aceitáveis quanto incompatíveis.

Uma virtude de Poente é a remissão ao trabalho anterior. A duplicidade entre objetividade e subjetividade e entre os reflexos no espelho e as coisas materiais seria o bastante para lembrar de Anunciação (2008), encaixe perfeito entre uma taça de vidro e uma lâmpada acesa. O próprio galho na verdade são dois: a descontinuidade do material simula uma continuidade entre a imagem e a coisa. Mas o batistério decorado com anjos pintados nos anos 40 com feições indígenas, contíguo ao salão principal onde se encontra Poente, de algum modo complementa Anunciação, que não aparece como um segundo trabalho nem como um prolongamento, mas entre parênteses, como uma lembrança ou, como dizem os antropólogos, sobrevivência.

Se a ênfase de Poente é a relação entre imagem e realidade, Anunciação remete à possibilidade de que a matéria finita contenha a infinitude: a taça de vidro lembra o ventre da mulher e a lâmpada acesa, uma luz espiritual que se difunde pela taça. Se a luz de Poente vem da porta em forma de arco (e da pequena janela redonda acima) e ilumina horizontalmente o galho ao centro da sala, em Anunciação a luz vem de dentro, ilumina o aposento contíguo criando um novo espaço interior (para além do interior da taça), que ganha os tons terrosos das paredes decoradas com afrescos. O conteúdo que ultrapassa o continente é um dos problemas metafísicos que motivaram a repulsa às imagens em diversos momentos da história. O dilema é antiqüíssimo, mas, a certa altura, o ícone de Maria serviu de argumento: se um corpo humano pode dar à luz a substância divina, então uma obra de arte (material) pode exprimir aquilo que seria “incircunscritível”. Anunciação aparece através de Poente, assim como a luz aparece através do vidro.

Imagens e obras de arte não deixam de ser objetos para nós, isto é, que reconhecemos como parte da nossa experiência, construída a partir dos conceitos e categorias que são as ferramentas que nós usamos para nos entender e para entender o mundo. Nesse sentido, são como coisas quaisquer, como um galho seco. A característica comum entre as imagens e as coisas é justamente o que coloca a questão sobre a dificuldade de se determinar o sentido desse tipo específico de ser que é uma imagem ou uma obra de arte. Uma metáfora convencional ou uma obra de arte figurativa devem remeter a uma resposta determinada e não compreendê-la apenas adia a solução de um mistério, como as questões “objetivas” de que se falava há pouco. Um trabalho como o de Felipe Cohen desloca as imagens e as obras de arte para um outro campo. Poente lembra a estranha metáfora formulada pelo poema de João Cabral (1950): “Aquele rio / era como um cão sem plumas”. A interpretação não deve buscar um sentido oculto por trás das imagens, mas percorrer os elementos que a compõem e explorar suas inter-relações.

Este galho não é uma coisa qualquer, mas uma forma viva que serpenteia como um relâmpago entre os mundos da imagem e da realidade. A imagem é um ser vivo, ele quer dizer, tanto quanto o corpo material das obras de arte pode conter um sentido e tanto quanto os corpos físicos se transmitem por memórias, sonhos, pensamentos.

Texto de Douglas de Freitas e informações sobre a exposição

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