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Coleção Ludwig

 

A enorme pintura de Gottfried Helnwein, Cabeça de criança, recebe os espectadores da exposição “Visões da coleção Ludwig” no CCBB de São Paulo. Os olhos fechados não representam indiferença, mas vida interior. A recusa a uma troca de olhares anuncia a dimensão solene e introspectiva em que se está prestes a ingressar a partir dos agitados calçadões, onde predominam assuntos práticos, negócios, compras, trajetos, horários etc.

Bem diferente é o retrato de Peter Ludwig feito em 1980 por Andy Warhol, que abre a primeira sala da exposição, no quarto andar do edifício. Ele nos fita de modo hospitaleiro, apesar da opulência da coleção de que não se vê senão uma parte e que continua a crescer, transpondo os limites de sua própria vida. É circunstancial a impressão de que artistas sejam exclusivos portadores de posteridade, tradicionalmente se representa o doador junto a uma imagem de sua encomenda ou na própria imagem encomendada, demonstrando reverência, como o mercador de tecidos que Piero della Francesca pintou ao lado de São Gerônimo (a pintura da Galeria Accademia de Veneza pode ser vista temporariamente no Museu Metropolitan de Nova York).

Na vida póstuma de sua coleção, Ludwig se apresenta ao mesmo tempo como donatário, por ser o detentor das obras de arte, e doador, por mostrá-las ao público, como se prestasse o serviço contínuo da necessária retribuição. Enquanto se dirige ao visitante, seu retrato surge rodeado por trabalhos significativos, que aludem a uma continuidade da história na arte moderna: a pintura de Picasso, a colagem de Rauschenberg e a escultura de Segal.

Cabeças grandes é uma pintura tardia de Picasso, de pinceladas fortes, que flertam perigosamente com a deselegância e ameaçam o casamento feliz entre desenvoltura e vivacidade, peculiar ao mestre moderno. As “cabeças” são de mulher e menino, o antiqüíssimo ícone cristão. No rosto do menino, olhos e boca são compostos por linhas sinuosas, quase grafismos, enquanto a mulher tem olhos que flamejam num clarão brilhante e sua boca é uma ondulação que invade a cabeça com um sorriso lascivo.

A escultura de George Segal, Mulher sentada, e a colagem de Rauschenberg, Banho turco, em que a imagem reticulada da pintura de Ingres aparece entre uma cadeira e um aparelho de TV, mostram o convívio com a arte como algo espontâneo, na contramão da solenidade anunciada à entrada. O preâmbulo completa-se com a imagem do espectador refletida no espelho que se descobre por trás dos tijolos de O muro, de Michelangelo Pistoletto. Ou talvez com as travessas de Banana split de Claes Oldenburg, quando, cumprimentado pelo anfitrião, sentado em companhia da livre beleza moderna e bem servido, o visitante pode finalmente compreender a mudança de registro por que se é preciso passar quando se sai das ruas para entrar na dimensão estética.

Esqueça-se, portanto, a pretensão da arte moderna a uma experiência direta da dimensão estética, acessível universalmente às consciências livres. Mesmo quando problematizam sua identidade com os objetos comuns, o que Oldenburg faz muito menos radicalmente do que Warhol nas caixas de Brillo, e que Pistoletto fez brilhantemente, é enganoso não considerar que esses trabalhos ainda se encontrem sob a jurisdição do discurso sobre a história da arte que ergueu um muro intransponível ao redor do modernismo, para usar a bela imagem criada pelo artista italiano, ligado ao movimento arte povera.

Se resta alguma dúvida, considere os ordenanças da coleção Ludwig a serviço do Banco do Brasil e avalie sua civilidade caso algum dos visitantes ceda ao que parece um convite irresistível de Michelangelo Pistoletto para fazer uma selfie.