§

“Na chácara da Luz” de Wilson Sukorski

 

“Em 1770, a irmã carmelita Helena Maria do Espírito Santo tem visões que relata a seu confessor, o franciscano frei Antônio de Santana Galvão: as visões se referem à criação de um convento para religiosas em São Paulo. (…) Finalmente, foi Dom Luís Antônio [o capitão general Morgado de Mateus] quem, inspirado por frei Antônio de Santana Galvão e madre Helena Maria do Sacramento, autorizou a fundação do Recolhimento da Luz, a 2 de fevereiro de 1774.”

Frei Galvão teria registrado a visão sobre o chão de sua cela, imagem preservada de exposição pública, mas fartamente reproduzida como emblema do Museu de Arte Sacra, situado no antigo mosteiro. Tecnicamente desautorizada, a lenda tem dois aspectos notáveis: a capacidade do confessor de transmitir visualmente aquilo que lhe foi dito e a origem “não humana” da construção na qual o frei teria participado com suas próprias mãos. A palavra comunica a imagem, que por sua vez confere ao trabalho manual um valor espiritual. A imagem é um fator determinante dos ajustes entre pensamento, trabalho e fé.

A cela não deve ter sido ocupada pelo recentemente canonizado frei Galvão, que portanto não desenhou a imagem. Tampouco atuou ele como operário na construção do edifício, embora tenha trabalhado na arrecadação dos recursos que a viabilizaram. A lenda enquadra a imagem como objeto de culto. Por isso parece preferível afastá-la como uma falsa versão dos fatos em lugar de investigá-la como um tema de estudo interessante por si só. A mesma lógica se aplica ao valor de culto das imagens. Elas dão ao museu sua razão de ser, mas apenas na medida em que são vistas, expostas e conhecidas exclusivamente como obras de arte.

As imagens do “catolicismo culturalmente brasileiro e caipira” (José de Souza Martins) foram devolvidas à intersecção entre tempo, espaço e aspiração à eternidade pelas sobreposições e polifonias produzidas pela instalação de Wilson Sukorski, em que composição musical, edição de vídeo e muita sensibilidade para captar o espírito do lugar concorrem para restituir algo do poder que elas tiveram antes de ser confinadas à condição de peças de museu.

Um raio de luz destaca o Museu de Arte Sacra, que tomou o lugar do mosteiro, na fotografia feita por satélite. Estendida pelo chão, ela representa literalmente uma visão celestial. A tecnologia divulga imagens feitas a partir do céu, assim como as imagens dos santos difundiram uma vida espiritual talvez inacessível para quem não compreendesse textos e símbolos.

Com a fotografia aérea formam o “tríptico” duas projeções de vídeo com montagens acompanhadas pela trilha sonora impregnante composta por Sukorski. À frente do espectador e atrás dele são projetadas fotografias antigas e filmagens atuais do local e do entorno, assim como imagens das imagens do acervo, reunido pelo arcebispo Duarte Leopoldo e Silva quando uma tendência iconoclasta dos padres ligados à “romanização” quase pôs tudo a perder. Ao lado, em clara referência à distorção diagonal imprimida à perspectiva da pintura “barroca”, Sukorski projeta imagens de manuscritos teológicos e símbolos religiosos.

A edição de vídeo sincroniza a música e o movimento de zoom sobre as imagens, confundindo fotografias, filmagens e imaginária. Sobreposições entre as sucessivas imagens potencializam a reciprocidade das relações entre os planos. Formam-se associações oníricas, como em colagens surrealistas, em alusão a uma interioridade da vida religiosa que era compartilhada com as imagens, mas não necessariamente controlada pela Igreja.

Um intrigante curto-circuito se estabelece entre o descentramento da pintura dos grandes mestres e o espaço da instalação. A atmosfera do encontro pessoal com as imagens se recria tal como se elas estivessem de volta às igrejas das quais foram removidas. Elas ainda podem ser vistas como imagens, apesar das frias classificações e da estranha publicidade a que são submetidas no espaço museológico, enquanto coadjuvantes de uma história da arte.

Música, montagem, correspondências e sobreposições proporcionaram às imagens do museu um renascimento momentâneo.