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Silvia M no espaço Transarte

Depois do pintor americano Timothy Cummings e da fotógrafa alemã Iwajla Klinke, o espaço Transarte apresenta uma exposição da artista paulistana Silvia M a partir de 16 de agosto. Os três realizaram residências artísticas no espaço dirigido por Maria Helena Peres Oliveira e localizado na rua Alameda Santos, 1518. Nos trabalhos dos estrangeiros transparecia o contato com a realidade brasileira. Para Silvia M, a residência levou à introspecção e a uma concentração intensa no próprio trabalho.

A artista realiza trabalhos com dois tipos de materiais: objetos que foram dados para ela e objetos abandonados, que ela coletou no espaço público. Objetos dados e jogados fora sofrem então uma série de intervenções, eles podem ser moldados em gesso, fotografados, costurados com espuma ou justapostos a outros objetos. Embora a artista afirme que, ao coletar coisas nas ruas, seleciona aquelas que lhe parecem “plasticamente interessantes,” a história de cada objeto também é essencial para o trabalho.

Costuras e bordados são características de trabalhos de Silvia M desde Por dentro, uma série de caixas manipuláveis expostas no espaço cultural da Caixa Econômica Federal em 2002. A partir de 2006, a artista cria objetos com imagens cobertas de parafina e moldes de gesso sobre peças de mobília, como gavetas e portas de armário. Os móveis, não feitos pelas mãos da artista, fazem parte do trabalho. O procedimento tem como referência os ready-mades de Duchamp e os objets-trouvés dos surrealistas.

No mesmo ano, a artista produz trabalhos a partir da residência artística do Ateliê Amarelo com objetos coletados na região paulistana da “cracolândia.” Esses objetos foram substituídos por moldes de gesso instalados no local onde haviam sido encontrados. Muitos deles figuram na exposição atual, reaproveitados em trabalhos posteriores.

Em 2009, com a série Visitas invasoras, a artista aprofunda o caráter relacional do trabalho, que era de trocas com o meio (as coisas pelos moldes). Silvia M realiza uma série de visitas a pessoas mais ou menos próximas e recebe coisas oferecidas por elas, que ela não escolhe. Moldes de gesso produzidos a partir desses objetos devem ser posteriormente instalados nas casas, como uma espécie de retribuição.

Os moldes e as ações da artista são visíveis apenas para os que a receberam. Seus vestígios são os registros escritos e fotográficos, além dos próprios objetos dados, que, assim como os objetos descartados, retornam em forma de outros trabalhos. Esses novos trabalhos, por sua vez, não deixam de ser vestígios das ações pelas quais os objetos foram adquiridos, de modo que se problematiza o conceito de obra de arte como um objeto determinado que deve ser apreciado por suas próprias qualidades.

O complexo sistema de trocas recíprocas tematizado por Silvia M extrapola as intenções vanguardistas e reproduz os passos estipulados pelo sociólogo Marcel Mauss em Ensaio sobre a dádiva (1925) ao reencenar as obrigações de dar, receber e retribuir que se exprimem na vida própria que as coisas parecem ter quando circulam.

A exposição de Silvia M no espaço Transarte contém diversas séries de trabalhos com objetos dados e descartados, como brinquedos, roupas, sapatos, fragmentos de peças mecânicas e eletrônicas. Um trabalho maior, com objetos bordados e plastificados, alguns deles coletados na “cracolândia” em 2006, foi montado no local durante o período de residência.

A disposição dos trabalhos de Silvia M foi desenhada pela artista plástica Maria Bonomi. Amplo catálogo de trabalhos da artista foi produzido por Maria Helena Peres Oliveira com textos do artista plástico Arthur Luiz Piza e do crítico José Bento Ferreira.