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A melhor obra de arte de 2011

O descanso da sala, de José Spaniol.

 

Nunca antes na história da arte houve tanto pudor para montar uma exposição. Os novos puristas fizeram da curadoria uma ciência insondável, cercada de mistérios e acessível a poucos iluminados, mais importante do que os artistas e os seus trabalhos.

Nesses tempos, não deve ser fácil expor em espaços públicos. O trabalho de arte corre o risco de sumir em meio à diversidade de estímulos e informações do espaço ao redor. Muito mais cômoda é a neutralidade asséptica do “cubo branco”, uma sala vazia.

Talvez os mais bem-sucedidos exemplos de arte pública na cidade de São Paulo sejam as esculturas de Amilcar de Castro e Franz Weissmann na praça da Sé. Impossível não vê-las, impossível não ver o espaço ao redor e através delas, ainda que à distância e velozmente.

O parque Burle Marx, próximo à ponte João Dias e ao lado da marginal Pinheiros, oferece estímulos de várias ordens: vastos gramados, belas paredes de concreto com ladrilhos e uma estranha mansão de dimensões gigantescas que, segundo funcionários do parque, é uma propriedade particular e estaria sendo restaurada para se tornar um hotel.

O descanso da sala, de José Spaniol, fica no meio da mata fechada, sobre uma lagoa opaca, acessível por meio de uma trilha lamacenta.

Os móveis metálicos suspensos de cabeça para baixo e à altura das copas das árvores refletem a luz do sol em contraste com a penumbra típica da Mata Atlântica. Uma mesa, uma cama, uma escada e duas cadeiras dificilmente estariam na mesma “sala”, mas isso parece insignificante diante da poderosa imagem das formas regulares e resplandecentes dos objetos aparecendo em meio à mata sombria e retorcida.

Em janeiro de 2010, no Mosteiro de São Bento, diversos trabalhos de José Spaniol eram objetos suspensos por estacas de madeira. Há uma relação de continuidade entre eles e a escultura no parque, perceptível até mesmo no contraste entre a localização geográfica de cada exposição: por um lado, o centro histórico, movimentado e fervilhante; pelo outro, a exuberante beleza natural do parque Burle Marx , afastado do centro e freqüentado por poucos.

Na superfície da lagoa, a sala aparece normalmente, sem que os móveis pareçam de cabeça para baixo, como na escultura em si mesma. Algumas regiões da imagem que se forma ficam mais escuras, de modo que a imagem do reflexo da escultura lembre um negativo, como se dizia antes da foto digital, no tempo dos filmes fotográficos.

Na escultura, ficam evidentes as formas regulares dos móveis e é muito rico o contraste desta regularidade com o tipo de vegetação do local. Apesar do teor “figurativo”, há um certo minimalismo, que lembra os trabalhos de Donald Judd. Os móveis são construídos com repetições de formas geométricas. Não há cor, mas o brilho do sol em contraste com a mata sombria faz com que essas formas deixem de parecer objetos corriqueiros e pareçam mais belos, puros e perfeitos do que o que quer que se encontre no mundo natural e possa ser tocado.

Na imagem refletida, a sala tem algo de misterioso e espectral. A escultura perde o seu geometrismo e torna-se uma imagem plana, perfeitamente integrada ao jogo de luz e sombra composto com o céu iluminado e as sombras das folhagens. Nesse mundo às avessas, a luz deixa de ser o meio revelador. É pela sombra que se vê as coisas.

Os dois aspectos da obra se combinam e complementam. Não há oposição entre formalismo e expressividade.

Como numa figura de Escher, a escada (por que há uma escada na sala?) parece fazer uma passagem entre essas duas dimensões da obra, partes integrantes, indicando, talvez, sua equivalência.

Como afirmou o pensador pré-socrático Heráclito de Éfeso, “a rota para cima e para baixo é uma e a mesma”.

 

 

A trilha lamacenta em meio à Mata Atlântica e a ruína de uma antiga casa rural violentamente destroçada pela vegetação e pela intempérie são duas coisas que me impressionaram muito no parque Burle Marx. Aquele lugar me pareceu estranhamente familiar.

Não sei dizer até que ponto essa impressão pode ter sido suscitada ou pelo menos intensificada pela escultura. Acredito que em grande medida.

Superando trabalhos de artistas consagrados e amigos do peito, José Spaniol, que eu não conheço pessoalmente, pode ser considerado uma espécie de bi-campeão, uma vez que, com Marco Giannotti, é co-autor de Vigília, que eu indiquei como a melhor obra de arte de 2010.

Muito obrigado à Tessa pelas fotos!

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A última torre

Quem já conhece o trabalho de Lais Myrrha espera encontrar um espaço repleto de destroços, arranjos de objetos comuns, algum tipo de estrutura em cimento: espera encontrar alguma coisa. Mas, em Coluna infinita, vê-se apenas uma projeção de vídeo sobre um fundo azul com sacos de cimento atirados uns sobre os outros. Cada queda produz um estampido seco. O espaço vazio e o som ritmado provocam uma sensação perturbadora. O que significa aquele fundo azul? Melhor sair, voltar mais tarde.

Era semelhante a impressão do trabalho de Lais Myrrha na exposição “Aluga-se” (2010), em que a disposição de objetos comuns, como portas e persianas, flertava com a fronteira entre a experiência estética e as coisas puras e simples. Havia ali uma interdição, assim como na imagem da Coluna: o espectador não podia andar pelo espaço, apenas vê-lo. Mas aquele lugar era belo, não de todo perturbador. Era na própria beleza do que podia ser visto como comum que residia o teor crítico e reflexivo daquele trabalho.

Enquanto a imagem criada por Lais Myrrha perturbava os espectadores no Paço das Artes, uma efeméride recuperava a imagem mais perturbadora do século 21. Dez anos depois, voltavam a ser onipresentes as imagens dos atentados às “Torres Gêmeas”. Ao fundo, um céu azul. O dia 11 de setembro de 2001 havia começado com uma bela manhã de terça-feira em Nova York. Poderosas imagens se seguiram: execuções, torturas, bombardeios e novos atentados. Em face delas, as idéias ficaram impotentes. Fim da história ou choque de civilizações? Incapazes de explicar o mundo, as próprias idéias se converteram em imagens monstruosas, pesadelos da razão: cruzadas, guerra santa, terror.

A Coluna de Lais Myrrha ficou mais legível depois que, com a celebração dos dez anos dos ataques, repetiram-se as imagens do terror de modo tão intenso quanto naqueles dias de choque em setembro e nos meses que se seguiram, durante as escavações (por meses, os destroços fumegavam). As imagens se repetiram de modo mais complexo e diversificado, uma vez que o balanço da década incorporou as imagens do terror que se seguiram.

É da própria forma dos meios de comunicação que se trata esse trabalho de Lais Myrrha, com o fundo azul que lembra o céu de Nova York em 11 de setembro de 2001 e o looping de vídeos da internet, dos nossos arquivos de áudio e da edição de telejornais.
Ela já havia feito esse tipo de referência à opacidade dos meios quando misturou edições do “Jornal Nacional” da Rede Globo na polifonia sinistra de Bestiário (2005). A artista demonstra que, como dizia Marshall McLuhan, os meios de comunicação determinam o modo como nós vemos o mundo.

Se alguns trabalhos de Lais Myrrha são áridos, Coluna infinita atinge a epítome da aridez pela própria ausência de um objeto material, por existir apenas como imagem. Se essa ausência fosse cômoda ou agradável para o espectador, isto é, se o trabalho fosse belo, como vários outros dos seus trabalhos, sem contradição com o potencial de resistência de que ela nunca abre mão, então seria possível aceitar o convite que tem sido feito todos os dias a um número cada vez maior de pessoas no planeta, para optar pelas imagens do mundo e esquecer-se do mundo da vida.

Apesar dos estampidos que anunciam uma presença, ainda somos capazes de estranhar a imagem imponente na sala vazia. Não conseguimos nos acostumar com ela. Pelo menos ainda não. Melhor sair e talvez não voltar, porque é muito mais confortável estar entre as obras de arte que sabemos ser coisas ao nosso redor do que nos confrontarmos com o fantasma de um monstro, a “aparição de algo distante”, como Walter Benjamin definiu o conceito de aura. O trabalho de Lais Myrrha foi feito para garantir que esse conceito ainda é extemporâneo para nós, apesar dos pesares. Como Empire, de Andy Warhol (1964), quanto mais literal (ou “lugar-comum”, como diria Arthur C. Danto) parece ser o trabalho, mais se percebe as marcas do meio, seja ele o filme ou o vídeo, e portanto menos literal ele é de fato. Precisamente por ser perturbadora, a Coluna é um sinal de que ainda preferimos viver entre coisas do que entre imagens, enquanto a experiência estética, a razão e a consciência permanecerem insatisfeitas com elas.

O sentimento de estranheza provocado pela Coluna infinita também pode ser pensado como um alerta. No relato bíblico do Gênese, um povo que falava somente uma língua, liderado por Nimrod, pretendeu construir uma torre para que Deus reconhecesse o seu valor, a “Torre de Babel”. A bela pintura produzida por Bruegel em 1563 exalta a dedicação daqueles trabalhadores, mas a irregularidade dos círculos prefigura a queda iminente como um castigo pelo seu orgulho. Também os sacos de cimento que compõem o trabalho de Lais Myrrha estão prestes a cair. Não há equilíbrio ou sustentabilidade, o formato em looping nos ilude quanto a uma continuidade. Esse formato constitui-se hoje em dia como uma espécie de linguagem universal, reivindicada por diversos povos como representação de cidadania, abertura política e oportunidades econômicas. Talvez essa linguagem seja a hybris do tempo presente, uma arrogante pretensão unificadora, e crises como a de Babel obscureçam os sonhos de uma sociedade justa e multicultural.

Com trabalhos como o de Lais Myrrha, a arte contemporânea pode servir de alerta para repensar o entusiasmo pela globalização e pelas novas tecnologias. A sensação de uma catástrofe iminente pode ser aquilo mesmo que nos impede de perceber que a catástrofe talvez já tenha acontecido. Como sugere Paul Kennedy, professor de História da Universidade de Yale, no artigo recentemente publicado pelo jornal “O Estado de São Paulo”, Entramos em uma nova era?, podemos já ter cruzado essa linha:

“Vimos a queda do valor do dólar, a desintegração dos sonhos europeus, a corrida armamentista na Ásia e a paralisia do Conselho de segurança da ONU cada vez que há uma ameaça de veto. Será que essas coisas não indicariam que estamos penetrando em território desconhecido, em um mundo agitado? Que, se comparada a ele, a visível alegria dos consumidores que saem de uma loja da Apple com um aparelho novo parece boba e sem importância? É como se estivéssemos novamente em 1500, saindo da Idade Média para o mundo moderno, quando as multidões se maravilhavam diante de um arco novo, maior e mais poderoso. Não deveríamos levar o nosso mundo um pouco mais a sério?”

Admiramos a bela escultura de Brancusi sem jamais ter visitado a cidade romena de Târgu Jiu, acreditamos que a simplicidade e o equilíbrio das formas nas suas versões são os sinais de que, mesmo sem ser conduzida pelas regras da sensibilidade, a imaginação pode funcionar de acordo com uma vontade livre e autônoma.

Enquanto isso, condicionamos nossa liberdade de pensar a meios de comunicação que representam a “esfera pública” e o “mundo letrado”, mas que padronizam e determinam a forma das nossas mensagens.

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Como estudante de filosofia da USP realizei pesquisas sobre o filósofo Maurice Merleau-Ponty e o pintor Paul Cézanne, que despertaram meu interesse por história da arte e arte contemporânea.

Desde 2002, tenho escrito textos críticos para exposições de arte em galerias e espaços públicos. Tive a oportunidade de escrever três grandes textos para livros de arte publicados pela editora Cosacnaify, todos eles no limiar do perfil biográfico e do pensamento estético, sobre a galerista Raquel Arnaud, o pintor Paulo Pasta e a escultora e gravadora Elisa Bracher.

Conheci o pintor paulista Newman Schutze numa oficina ministrada por mim e pelo crítico Guy Amado, organizada pela jornalista Juliana Monachesi e dirigida para artistas em busca de diálogo e de uma avaliação crítica sobre o trabalho de arte.

Newman trabalha com pintura desde os anos 80, mas apesar do sucesso profissional não obteve reconhecimento no meio de arte até o final dos anos 90, quando o diálogo com o artista plástico e professor Carlos Fajardo o fez repensar seu processo criativo e o seu trabalho ficou muito mais consistente. Também o diálogo com o crítico e professor Agnaldo Farias, curador da Bienal de Arte de 2010, foi determinante para a evolução da pintura de Newman nos últimos dez anos.

Logo me impressionei com o interesse de Newman Schutze por teoria da arte e pela sua capacidade de autocrítica, características que a meu ver têm sido as mais importantes para a qualidade do trabalho de arte. Vejo Newman Schutze como um bom exemplo de “artista autoconsciente”, nos termos do filósofo e crítico de arte norte-americano Arthur C. Danto, tal como tentei demonstrar no meu primeiro texto sobre ele, que pode ser lido aqui.

O livro Newman Schutze, nanquim, óleo, publicado pela editora DBA, contém reproduções desses trabalhos mais recentes, além de ensaios escritos por Guy Amado, Agnaldo Farias e por mim.

O professor Agnaldo Farias fala mais sobre o livro nesta entrevista ao jornalista Alexandre Machado.